Gratidão - Parte 1
Uma introdução em forma de entrevista
INTRODUÇÃO
Q1. Vamos falar de gratidão, mas não sabemos já todos o que é a gratidão?
Sim, de alguma forma todos sabemos o que é a gratidão. Porém, certamente que se trata de um conhecimento parcial e, como tal, é precário e potencialmente cheio de mal entendidos. Podemos dizer que todos os nossos conhecimentos são parciais, porque não podemos conhecer nada real por inteiro. É certo, mas vamos seguir um critério prático: o nosso conhecimento a respeito da gratidão é insatisfatório se não for suficiente para orientar e justificar a nossa conduta sobre o assunto em questão. Não temos que ter uma justificação formal, porque isso depende do nosso talento com as palavras, mas digamos que precisamos de saber que pisamos terreno firme.
Então, o nosso ponto de partida é assumirmos que temos um conhecimento parcial, confuso ou insuficiente sobre a gratidão. Quem já souber tudo a respeito, não precisa de ouvir mais. Mas para nós, que somos limitados e pouco esclarecidos, torna-se necessário descobrir ou redescobrir o que é a gratidão. De acordo com o método socrático, este processo deve ir atrás tanto quanto nos é possível. Então, vamos apelar ao testemunho pessoal e tentar reviver as nossas experiências de gratidão, especialmente as mais antigas.
Q2. Podemos introduzir o tema contando alguma história ou isso não é o mais adequado para nós?
Os manuais de boas práticas actuais dizem que não devemos fazer coisas complicadas, como tentar reconstituir experiências antigas. Hoje o padrão é começar qualquer apresentação, palestra ou aula contando alguma história. A forma natural de envolvermos um auditório em algum assunto acontece por meio de narrativas, de eventos reais ou fictícios, não apenas por elas provocarem um efeito emocional, mas também porque têm impacto noutros níveis, incluindo o intelectual. Se contarmos uma história apropriada, torna-se mais fácil para a mente juntar a informação. E podíamos fazer isso, apresentar algumas histórias, até porque é fácil encontrá-las na Internet. Temos histórias em que uma pessoa conta como alguém salvou a sua vida ou a vida dos filhos, ou alguém conta como um bom samaritano o ajudou a sair do vício das drogas, ou como foi resgatado espiritualmente ou intelectualmente por alguém.
Contudo, apresentar estas histórias, embora possa ter algum impacto (caso tivéssemos talento para as contar), levanta dois problemas. Por um lado, rapidamente os ouvintes dão-se conta de que não têm histórias extraordinárias como aquelas que ouviram e se tiverem não precisam de ouvir as de outras pessoas. Isto pode provocar uma reacção inesperada, de ingratidão em quem não têm as mesmas experiências notáveis. “Se me tivesse acontecido algo assim também estaria grato, mas nunca ninguém fez nada por mim”. Por outro lado, as histórias comuns sobre a gratidão enfocam um lado mais exterior ou social do fenómeno, que é importante, mas mais importante ainda para nós é tentar perceber o núcleo onde a gratidão se gera. Não é fácil encontrar uma história singela que nos prepare para a perspectiva que vamos abordar.
Q3. Então, qual vai ser a nossa abordagem?
O que vamos fazer aqui é tentar perceber o que é a gratidão não propriamente em termos abstractos mas existenciais. Isto não vai ter qualquer interesse para quem não esteja disposto a embarcar nesta busca e só queira ouvir um discurso motivador.
Se não fizermos este mergulho em maior profundidade, quando quisermos colocar em acto formas de gratidão mais ambiciosas, como agradecer a Deus, isso vai ter um alcance limitado. Se a pessoa for humilde, não há problema, mas se ela acha arrogantemente que já está pronta para um grande acto espiritual sem qualquer preparação, isso será como o sujeito que não quer aprender a escrever, mas acha que pode logo escrever um soneto melhor do que os de Camões.
Q4. A propósito, fala-se muito da gratidão no plano religioso. Vamos abordar essa faceta da gratidão?
Podemos já falar alguma coisa e talvez noutra gravação voltemos a falar, caso tenhamos alguma coisa a dizer. No caso da dimensão religiosa da gratidão, podemos ter ouvido dizer que os santos ensinam a agradecer a Deus tanto as coisas boas quanto as más e isto pode nos galvanizar, porque parece um desafio interessante, provocador. Mas será que os santos diziam tais coisas porque também estavam dominados por uma excitação momentânea? Obviamente, não. Certamente eles não se limitavam a seguir alguma moda passageira, mas hoje verifica-se que muitas pessoas orientam a sua vida religiosa por modas de Internet ou das redes sociais, obedecendo a um desejo mimético cego. Algumas destas modas até podem trazer algo válido, pelo que não são totalmente para descartar, mas para fazermos uma avaliação apropriada temos de ter antes algum critério seguro de julgamento ou então, se não temos este critério, temos de assumir essa situação e saber que todos os nossos julgamentos são problemáticos e muito incertos.
Q5. Mas a gratidão religiosa não é um desafio mais prático do que intelectual?
Isso vai depender de cada um, de qual é a sua dificuldade principal.
Entrando um pouco mais neste assunto de agradecer tanto as coisas boas quanto as más, percebemos que não é apenas um desafio prático, de saber lidar com o sofrimento, mas é também um desafio intelectual. Precisamos dar um sentido ao sofrimento e também saber se Deus provoca o mal na nossa vida. Os filósofos gregos já se tinham insurgido contra a ideia antiga de Zeus trazer tanto as coisas boas quanto as más à vida dos homens. De alguma forma, o ponto alto da filosofia grega está em Platão, com a superação do dualismo aqui implícito afirmando a primazia do Bem supremo. Isto já tinha sido colocado em marcha por Homero, que na Ilíada já tinha tentado tornar inteligíveis as relações entre humanos e deuses, e depois na Odisseia, onde logo no início Zeus diz que os humanos culpam os deuses pelas suas desgraças, quando são eles que sofrem mais do que deviam devido à sua loucura. Num outro contexto, o cristão iria falar mais tarde que Deus permite o mal porque daí pode resultar um bem maior e poderíamos remontar muito antes ao Livro de Job, pelo menos na sua versão oral, que poderá ter cerca de 4 mil anos, que trata do problema do mal, embora o que é ali dito possa não acalmar muito as consciências que têm como horizonte máximo a vida terrestre.
Já muita coisa foi escrita mostrando que a existência do mal não coloca em xeque o poder divino, mas isso resolve todos os nossos problemas? Obviamente não. Intelectualmente podem sempre surgir novas objecções e conhecer uma explicação abstracta para a existência do mal pode não diminuir em nada a nossa incredulidade face às situações desagradáveis que encontramos. A presença do mal causa perplexidade, baralha os nossos raciocínios, abala a nossa vontade. Então, depois de um entusiasmo inicial, onde achamos que já estamos preparados para expressarmos a gratidão a Deus por permitir que coisas más aconteçam na nossa vida (acreditando que acumulamos méritos ou que ficamos mais fortes espiritualmente), quando algo realmente mau nos acontece, o resultado por ser um estado de apatia ou mesmo revolta. Talvez aí possamos nos dar conta de que não conseguimos criar virtude em nós apenas através de proclamações grandiosas, mas que precisamos de um outro tipo de solidez interior.
Q6. Temos, portanto, tanto desafios intelectuais como práticos. Vamos abordá-los independentemente ou há alguma forma de tratá-los simultaneamente?
A única forma que conheço que serve tanto para nos livrarmos de um emaranhado intelectual como de um torpor moral é apelar à realidade, confessando-a, para que ela se revele um pouco mais, como ensinava o professor Olavo de Carvalho. Isto é também o método socrático, embora muita gente, até competente intelectualmente, ache que o método de Sócrates era fazer perguntas. Exteriormente é o que ele fazia, mas o questionamento servia para se aproximarem da realidade, ele e os interlocutores, e testemunhá-la.
Não vamos conseguir falar tudo sobre a gratidão que tínhamos previsto. Nesta primeira parte vamos começar por ver o que é que a própria palavra nos indica em termos etimológicos. Depois tentaremos resgatar as experiências de gratidão da infância.
ETIMOLOGIA DO TERMO “GRATIDÃO”
Q7. Afinal, o que quer dizer o termo “gratidão”? Não sei se ajuda recorrer à etimologia da palavra.
Definitivamente, queremos ir além das palavras e penetrar, na medida das nossas possibilidades, na realidade das coisas. Contudo, é com palavras que falamos, escrevemos e, em parte, pensamos, pelo que também é avisado tentar esclarecê-las. Elas ajudam-nos, pelo que tenhamos a cortesia de lhe prestar a devida homenagem.
“Gratidão” remonta à palavra latina gratus, com significado de “agradecido” ou “agradável”, e também a gratia, que significa “graça”, “benção” ou “dádiva”. “Gratuito” ou “grátis” são palavras aparentadas com “gratidão”. Podemos pegar em cada um destes significados ou, como parece mais certeiro, tentar combiná-los, porque a gratidão não corresponde directamente a nenhum dos termos referidos. Então, numa primeira aproximação podemos entender a gratidão como uma reacção de agradecimento a uma dádiva, a algo que nos foi dado sem termos de dar algo em troca necessariamente. Isto corresponde ao entendimento universal sobre a gratidão, mas não chega.
Q8. Portanto, temos uma fonte dupla, por um lado a palavra “gratidão” remonta ao agradecimento, por outro, à dádiva. Isso está dentro da ideia que temos da gratidão, mesmo que seja precária. Contudo, é curioso que temos também o significado de “agradável” relativo a gratus. Isso é algo que se perdeu com o tempo ou ainda permanece associado à ideia de gratidão?
O facto de que gratus significa não apenas “agradecido” mas também “agradável” pode nos dar uma chave para completar o significado de gratidão. Mas também ficamos com um problema, porque o que é que é agradável? Temos várias possibilidades. Primeira, mais óbvia, é agradável receber coisas de graça. Segunda, devemos ser agradáveis com quem nos deu algo. Terceira, é o próprio acto de agradecimento que é agradável. Provavelmente a ideia era juntar todos estes sentidos, mas nós tendemos a pensar que o agradável está apenas relacionado com o receber.
Q9. Talvez seja prematura a questão, mas a alguns pode já ter aparecido a dúvida se devemos agradecer dizendo “obrigado”, “agradecido” ou talvez de outra forma.
É realmente uma questão um tanto prematura, porque ainda não esclarecemos o que é realmente a gratidão. Contudo, as atitudes exteriores moldam as atitudes interiores em alguma medida. Nós já lidamos com a gratidão como uma atitude exterior pelo que podemos dizer alguma coisa a respeito.
Devemos dizer “Obrigado” ou “Agradecido”? Isto vai depender de alguma forma da questão anterior, do que é que consideramos agradável no processo de gratidão, embora na prática seja sobretudo uma convenção social.
“Obrigado” significa que ficamos ligados ou amarrados à pessoa, ou seja, que agora lhe devemos um favor. Ou seja, temos o dever de ser agradáveis para com a pessoa que nos deu algo. “Agradecido” significa que ficamos agradados com aquilo que a pessoa fez por nós. Por norma, são os hábitos que determinam a forma como agradecemos e aqui podem intervir elementos culturais. Contudo, podemos ver um sentido mais profundo a estes costumes.
Dizer “obrigado” com plena consciência não significa que nos sentimos absolutamente obrigados a devolver um favor - embora em algumas culturas a coisa possa ter chegado a esse ponto, como acontecia em certa altura no Japão -, mas que respeitamos a ideia de retribuição, ou seja, afirmamos que não somos parasitas que querem apenas viver à custa dos outros (algo que hoje se tornou um estilo de vida respeitável). Isto está presente na expressão “troca de presentes”.
Por outro lado, dizer “agradecido” tem menos a ideia de um compromisso e aponta para a expressão do nosso apreço pela dádiva que recebemos, embora na prática as pessoas não façam sempre esta associação. Uma expressão como “fico agradecido” dá um ar menos formal ou talvez mais autêntico. Há línguas em que nem sequer há esta distinção, como em espanhol, que usam apenas gracias para o agradecimento. Mas se temos esta distinção na nossa língua, podemos usá-la para reflectir sobre estes sentidos, mesmo que não alteremos a nossa forma de agradecimento, que é uma coisa secundária. Também podemos dizer “estou grato”.
Q10. “Gratidão” e “graça” são palavras relacionadas. Na língua portuguesa “graça” não tem apenas o sentido de “gratuito” ou “dádiva” mas de também de algo “divertido” ou “engraçado”. Isto ainda tem alguma coisa a ver com a gratidão ou já é outra coisa?
Talvez tenha. A palavra “graça”, que está associada à gratidão, também tem o sentido de “divertido”, que é uma forma subtil de “engraçado”. Há quem relacione a palavra com “carisma”, que é um dom dado à pessoa. Com o tempo, ser divertido ou jocoso passou a ser um dom apreciado. Não sei se é este o motivo de “graça” ter também o significado de “divertido”. Será isto apenas uma curiosidade, ou será que podemos relacionar o humor com a gratidão mediante a ligação do primeiro não apenas com a inteligência mas também com uma atitude “jovial” em relação à realidade? Para esclarecermos isto temos de entrar na experiência mesma da gratidão, como faremos de seguida.
Q11. Não sei se ajudou fazermos esta digressão etimológica ou se criamos mais problemas.
Nem que seja por uma questão de precaução, olharmos para a etimologia das palavras é importante desde logo para ver se não estamos equivocados ou se alguma coisa nos escapou. Quando fazemos esta busca etimológica com regularidade, muitas vezes descobrimos que o significado ou significados actuais são mais pobres que os originais, o que eventualmente dá-nos algumas pistas interessantes.
No caso da gratidão, não temos grandes surpresas. A palavra relaciona-se com dádiva, agradável, graça, divertido, agradecimento. O mais surpreendente é a eventual relação com o humor, que talvez seja uma coisa que só apareça para nós por causa do duplo sentido de “graça” na língua portuguesa.
Podemos também ver estes tópicos de uma forma mais esquemática. Então, a gratidão envolve a) algo exterior a nós e que entra na nossa vida, b) que tem uma repercussão interior e c) que de alguma forma pede uma resposta nossa. Tem a forma de um trio, embora o foco habitual esteja quase todo no último elemento, na resposta de agradecimento, mas nós iremos enfocar mais os outros dois componentes.
A EXPERIÊNCIA DA GRATIDÃO
Q12. Acho que podemos entrar agora dentro da própria experiência da gratidão. Podemos dizer que o essencial da gratidão é a parte do agradecimento ou será que isto é o menos importante?
Se a gratidão fosse, na sua essência, apenas um agradecimento a uma dádiva, um “muito obrigado”, as crianças que ainda não têm uma linguagem falada seriam incapazes de gratidão. Podemos sempre encarar a gratidão apenas como um fenómeno verbal que ocorre no domínio das relações humanas. Estamos sempre a fazer reduções deste género e, infelizmente, muitas vezes esquecemos que são reduções e tomamos a parte seleccionada como se fosse o todo. Para nós esta abordagem não nos serve, porque acredito que o essencial da gratidão não é um mecanismo linguístico humano, mas algo diferente e que pode ser identificado precisamente nos primeiros anos de vida. Lamentavelmente, a maior parte das pessoas acaba por esquecer as suas experiências infantis e adopta uma noção de gratidão bastante limitada.
Q13. É mais acertado falarmos de gratidão como um sentimento?
Em certa medida, sim, mas temos que perceber primeiro qual é a origem desse sentimento, o que o despoleta. Quando deixamos de lado a parte verbal, a gratidão parece ser um sentimento que decorre da presença de uma coisa boa que nos foi dada. Poderíamos também falar de emoção, mas a experiência da gratidão já parece ter uma profundidade maior. Isto é apenas parte do processo, mas convém identificá-la bem. O nosso trabalho agora é identificarmos as experiências que nos fizeram sentir gratidão lá no no nosso passado remoto.
Talvez consigamos lembrar algumas experiências de infância em que recebemos alguma coisa ou tivemos alguma experiência, como uma viagem, e aquilo encheu-nos de uma alegria indizível. Era indizível porque aquilo tinha uma riqueza enorme e aparecia como algo que alargava o nosso mundo. É importante remontamos às experiências infantis porque em adultos é muito raro termos este tipo de vivência. Aquilo que um adulto chama de “novidade” é quase sempre uma variação de algo que ele já conhece.
Q14. Então, já não estamos a falar de um sentimento mas de experiências infantis. Isto não nos desvia do tema? O importante não seria resgatar o próprio sentimento da gratidão?
Talvez pareça um desvio mas não é. O sentimento de gratidão é uma reacção a uma experiência prévia. Não seria necessário olharmos para aquilo que despoletou a gratidão se o gatilho pudesse ser qualquer coisa. Podem ser muitas coisas que a desencadeiam, mas não é qualquer coisa, já que são necessários certos elementos. A gratidão pode aparecer nas mais variadas circunstâncias, mas parece-me que captamos melhor a sua essência quando algo nos dá uma visão mais alargada da realidade como algo fundamentalmente bom.
Mas como é esta experiência de novidade e de alargamento do mundo numa criança? Ela pode passar horas à volta de um brinquedo, ou de formigas, ou durante semanas fala de uma viagem que fez, porque aquilo lhe mostrou imensas coisas que ela não tinha antes visto ou imaginado. Desta experiência da novidade podem brotar inúmeras possibilidades que antes a imaginação ou o pensamento não tinham forma de conceber.
Q15. Nesta experiência há um certo elemento de surpresa…
Exacto, a experiência da gratidão normalmente envolve surpresa. A criança é como que apanhada desprevenida, o que é uma consequência de ter em mãos uma coisa que alarga o seu mundo. Associamos a surpresa à ingenuidade da criança, mas isso não diz nada da experiência real. Qualquer pessoa diante de algo que explode o seu horizonte de possibilidades fica com ar ingénuo, embasbacado ou infantil. O dado importante a salientar aqui é que a nossa experiência tem momentos diferenciados, em que a realidade se alarga para nós. Sem isto, a gratidão seria apenas uma regra social e não fazia muito sentido perder tempo reflectindo a seu respeito. Também por isso é até mais fácil tal experiência acontecer fora de ocasiões festivas, como Natal ou aniversário, porque nesse caso as crianças já começam a antever muitas vezes o que irão receber, mas também não é impossível ter a experiência nestas alturas.
Q16. Como é que podemos tornar mais nítidas para nós estas experiências infantis que envolvem ou despoletam a gratidão?
Primeiro devemos fazer um esforço de memória e quem não consegue se lembrar destas experiências de alargamento da realidade, devia observar crianças brincando com alguma que elas receberam para perceber do que se trata. Mas não pode ser uma observação com aquele ar de superioridade de adulto, que acha que a criança é tola porque se interessa por coisas irrelevantes, porque se já não conseguimos nos maravilhar com alguma coisa real, somos nós que perdemos capacidades. O importante é identificar estas experiências em que há qualquer coisa podia ser extraordinária, merecedora de uma atenção ilimitada. Os adultos têm sempre a atenção racionada, mas tentemos nos lembrar de um tempo em que não era assim.
Também não é para alguém se entusiasmar e ir em busca da infância perdida, ficando horas à volta de um brinquedo e esperando que aquilo desperte em nós alguma coisa de especial. Isso não vai resultar. As próprias crianças vão perdendo o interesse por certos objectos, quando esgotam aquilo que podem fazer com eles, e interessam-se por outros.
Q17. Estas experiências de alargamento da realidade só acontecem às crianças ou nós, adultos, também podemos tê-las?
A vida seria uma coisa estranha se não pudéssemos ter mais experiências de alargamento da realidade a partir de certa idade. Mas não podemos ter o mesmo senso de novidade quase absoluto que as crianças têm, o que faz sentido ou estas experiências não teriam criado uma certa base.
A versão adulta do entusiasmo infantil por alguma coisa seria algo como aprender uma arte, ou uma descoberta da realidade a partir da literatura ou de alguma área do conhecimento. Mas só vamos ter uma experiência de fascínio se não embarcarmos nestas actividades com algum interesse mundano, como ganhar dinheiro ou ser um influencer das redes sociais. Assim, já matamos a espontaneidade necessária ao processo. Estas finalidades mundanas até podem ser legítimas, mas estamos a pensar num plano diferente. Por vezes, a pessoa pode até entrar em algo com um interesse mesquinho, mas depois percebe ali algo extraordinário e muda o foco, mas isso são excepções.
A criança não tem ideia do mundo dos interesses, dos prestígios, e algo desta pureza precisamos recuperar, o que em geral não implica nenhum sacrifício real, já que essencialmente trata-se de abandonar certas ilusões de que vamos alcançar certas coisas se adotarmos uma certa atitude. Antigamente falava-se muito no poder dos desejos, no pensamento positivo, ou então que o cinismo ou a dissimulação nos davam protecção. Claro que temos que aprender a nos movermos no mundo humano, mas estas soluções toscas não resolvem nada e afastam-nos de um contacto mais despido com a realidade.
Se alguém pensar em aprender uma arte para recuperar estas experiências, é melhor não entrar com filosofias baratas, como a “arte pela arte”, porque quase certamente isto já vem com montes de teorias por trás e provavelmente com um enorme pretensiosismo.
O que queremos recuperar é o centro das experiências primordiais da nossa vida. Também poderíamos falar de experiências fundacionais, no sentido de terem lançado as fundações, que normalmente ficam ocultas, mas que continuam a exercer o seu poder estruturador.
Constatamos que a curiosidade infantil tem por trás o desejo ou anseio por intimidade com a realidade, que ao mesmo tempo é a forma dela adquirir intimidade consigo mesma.
Ao descobrir a variedade e riqueza dos entes reais, ela descobre também a sua capacidade de acompanhar tudo aquilo com as suas faculdades. Os sentidos acompanham aquilo que as coisas revelam no presente. A memória recolhe um historial delas, que é mais do que aquilo que elas revelam num instante, embora seja mais esquemático. A imaginação e o pensamento podem conceber possibilidades que as coisas sugerem e que podem futuramente eventualmente vir à luz do dia.
Q18. Será que podemos ver alguma relação entre estas experiências e aquilo que Cristo disse sobre o Reino dos Céus, que é para quem se tornar como uma criança?
Talvez… Nos Evangelhos, os discípulos desprezam as crianças. Dizem para elas se calarem, irem embora, porque era assim que elas eram encaradas na altura. Mas Cristo chama a si as crianças e diz que o Reino dos Céus é para quem se tornar como elas. Isto deve ter parecido estranho na altura e nós hoje interpretamos esta passagem como um apelo à humildade. Mas questiono se não há algo mais profundo. Não será porque as crianças desejam “instintivamente” ter intimidade com o ser das coisas? Esta é a maior homenagem que se pode dar ao mundo criado. Claro que elas não pensam no ser como conceito mas como presença, que se mostra infinitamente rica.
Q19. Anteriormente tínhamos visto que a gratidão relacionava-se etimologicamente com a ideia de “dádiva”, de algo que recebemos. Esta é uma associação que todos fazem, mas ainda não falamos a este respeito. A noção de dádiva está ausente nas experiências infantis?
Pode não parecer, mas o elemento de dádiva está absolutamente presente nas experiências infantis. Na verdade, trata-se de um ponto crucial na experiência da gratidão, a sensação de que aquilo que recebemos é uma dádiva, algo que se recebe simplesmente, sem que tenhamos de ter feito algo para o merecer. Normalmente associamos a dádiva à pessoa que providenciou o presente ou experiência, por isso ela é merecedora do agradecimento. Mas uma criança muito nova pode nem sequer ter noção de que alguém lhe dá coisas. Porém, isso não quer dizer que ela não tem noção de que aquelas coisas lhe são dadas, muito pelo contrário.
A experiência infantil parece ser a de que tudo lhe é dado, não apenas algumas coisas, e só aos poucos vai tendo noção da posse mais restrita, ou seja, que há coisas cujo acesso está reservado para certas pessoas. Isto é um processo complexo, por vezes doloroso, mas o importante é nos focarmos na experiência do mundo como dádiva. Isto é algo real, mas que tendemos a esquecer porque o mundo das relações humanas vai limitar o nosso acesso às coisas, assim como outros factores. Em muitas pessoas predomina a sensação de que o mundo está basicamente fechado para elas, o que está longe de afetar apenas pessoas desfavorecidas. Por norma, a pessoa mede isto através da comparação entre aquilo que ela tem e aquilo que gostaria de ter, pelo que se não tem acesso a certos bens ou círculos humanos desejados tende a achar o mundo como uma coisa limitada. Claro que isto é uma avaliação grosseira e essencialmente errada. A pessoa despreza tudo aquilo que tem de graça para se concentrar nos desejos frustrados. Claro que uma pessoa assim não tem muitas condições para uma gratidão genuína.
No caso da criança, quando ela não tem meios de expressar um agradecimento numa linguagem articulada, será que podemos dizer que ela é incapaz de gratidão ou, talvez, que a gratidão dela está ainda numa forma embrionária? Pelo contrário, acho que é precisamente aqui que é nela que a gratidão se encontra de forma mais pura e profunda.
Vejamos como a criança identifica ou lida com o elemento de dádiva ou de gratuitidade. Supondo que a criança tem um novo brinquedo nas mãos, mas pode também ser um objecto que ela encontrou, uma pedra com um formato invulgar ou uma concha da praia. As crianças ficam frequentemente horas de volta de um objecto e só podem fazer isso se aquilo se oferecer a elas, ou seja, se permite ser manipulado ou observado. O facto da criança fazer isso durante longos períodos já é um reconhecimento tácito de que aquilo é uma dádiva. Os adultos estão tão habituados a que as coisas estejam simplesmente aí, oferecendo-se, que já não reparam nisso e também não as aproveitam. É necessário um acto nosso, começando pela atenção, para que as coisas se revelem, caso contrário elas tornam-se para nós presenças vazias. Por norma, embrulhamos os presentes, o que desperta a curiosidade das crianças, mas os adultos agem frequentemente como se só existisse o embrulho.
Q20. Então, as coisas estão aí oferecendo-se a nós e depois?
Depois temos a riqueza das coisas que se oferecem a nós, que é algo que fascina a criança e que podemos recordar recorrendo ao artifício de fazer algumas questões. Porque é que um objecto pode ser manipulado de tantas formas? Porque tem esta dureza, cor, som? Porque é que aquela montanha tem aquela altura? Porque é que os insectos têm tantos formatos ou as aves tantas cores? Porque é que os gatos se movimentam de formas tão imprevistas e divertidas?
Poderíamos multiplicar estas perguntas indefinidamente. A criança não está propriamente a questionar as coisas, mas experimenta-as de todas as formas que lhes são possíveis, mas muitas vezes isso faz com elas coloquem de facto perguntas aos adultos, porque supõem que estes têm um maior entendimento daquelas coisas. A pergunta mais frequente é: o que é isto? Esta é a pergunta fulcral da filosofia, mas o que pretende obter a criança com esta questão? Apenas um nome? Ou será que querem uma explicação do que aquilo é? Provavelmente é um pouco das duas, no sentido de que o verdadeiro nome de Deus exprime a Sua natureza.
Se não quisermos ir tão longe, podemos dizer que a criança quer associar um sinal às suas experiências com alguma coisa. Desta forma a experiência não fica totalmente muda e torna-se mais fácil de recordá-la, que é uma forma de repeti-la de forma simplificada.
Se achamos que a criança quer uma explicação científica moderna para as coisas, estamos a passar longe da experiência dela. A ciência tem já um enfoque específico, mas a experiência infantil é aberta, quer absorver o máximo que conseguir das coisas e não tanto aprofundar um certo ponto de vista. Isto também existe, a criança pode se interessar durante algum tempo por alguma possibilidade de experimentação, mas também muda rapidamente o foco. Digamos que na experiência infantil o enfoque científico está presente em germe, mas é algo que se revela quando se absorve a riqueza geral daquilo. Também podemos dizer a perspectiva filosófica também está ali insinuando-se, porque um objecto pode ser visto de muitas perspectivas mas ele permanece o mesmo e tem que ser algo específico para permitir todos aqueles enfoques.
Q21. Há uma série de coisas em germe nestas experiências infantis, o que não torna muito fácil recordá-las como eram, porque a nossa tendência é já acrescentar a elas algum entendimento que adquirimos depois. Temos alguma forma de combatermos esta distorção?
Esse é um problema em quase tudo o que pretendemos conhecer. Devemos fazer um esforço para distinguir aquilo que realmente vemos daquilo que acrescentamos. Não é um grande problema se assumirmos que todo o conhecimento está em permanente revisão e pode ser purificado, complementado, etc. Contudo, temos de ter atenção para ver se não há algum erro mais fundamental na forma como abordamos as coisas. Algo que pode nos dificultar a compreensão destas experiências infantis são os modelos de conhecimento que já tomamos implicitamente. De uma forma muito básica, pensamos no conhecimento como algo do género: eu, como sujeito, tenho percepção dos objectos, ou seja, uso a minha atenção para seleccionar os objectos, que é ao mesmo tempo uma operação de captação pelos sentidos. Daí é retenho um esquema na memória e estes esquemas podem ser abstraídos para formar conceitos.
Isto não está errado e pode ser mais detalhado, mas pressupõe um estado em que já há uma clara diferenciação entre sujeito e objecto. Contudo, a criança ainda não tem essa diferenciação clara e o que ela faz é “perder-se”, no bom sentido, nas coisas que se oferecem a ela. De início não é completamente claro se é ela que decide fazer certa coisa com um brinquedo ou se é o próprio brinquedo que sugere isso pela sua simples presença e como a criança seguiu aquela sugestão automaticamente, ela sente-se também conduzida desde fora. Aos poucos é que ela começa a perceber-se a si mesma como algo que tem um certo poder de decisão e de direccionar a atenção, que se distingue das coisas, que são basicamente oferecidas. Mas esta diferenciação, que de alguma forma estabelece o sujeito e o objecto, vem do próprio exercício das faculdades, incluindo a memória.
Estas experiências podem parecer apenas uma fase muito primária da vida humana, mas elas são essenciais mais tarde para ter certos insights filosóficos ou de criação artística, que não são possíveis se a pessoa ficar no seu pedestal de sujeito isolado. É necessário, para termos estes insights, voltarmos a ter uma certa experiência de indiferenciação entre nós e os “objectos”, embora a consciência tenha como que se duplicar, para que uma outra parte consiga olhar para esta experiência como um sujeito diferenciado.
Q22. Então, temos aqui algo que vai além da gratidão, que é a criação, descoberta ou criação do “eu” ou de uma identidade, que é uma espécie de poder de decisão perante uma realidade que se oferece a ele.
Sim e é muito fácil os adultos não darem por isto. “O que está a fazer a criança?” Resposta: “Está a brincar, está a comer, está a fazer alguma coisa”. Mas ninguém diz que ela está a descobrir-se como um eu. Mas podemos ver que é isso que realmente está acontecendo através de certos indícios.
Uma coisa muito comum nas crianças é virem mostrar aos pais um desenho que fizeram, ou uma construção de lego, ou chamam atenção para algo extraordinário que viram e que é apenas uma coisa banal que já vimos milhares de vezes. Isto mostra como aquelas experiências são importantes para ela. Quando ocorre algum acidente e um brinquedo é destruído, elas choram, ficam muito afectadas. Então, a nossa avaliação de adulto diz que a criança é muito frágil emocionalmente, que precisa de reforços positivos, ou quando é pela positiva, achamos que ela se entusiasma com pouco, e ainda bem, achamos nós, porque podem ficar entretidas durante muito tempo e nos permitir descansar.
O problema desta avaliação é que não diz nada sobre a experiência real da criança, diz apenas como reagimos a ela. Para a criança é dramático que uma construção de lego se tenha desfeito não devido ao tempo perdido, mas porque era um pequeno mundo onde ela estava absorvida e que de repente foi rompido. Esse pequeno mundo é importante porque ali a criança estava a constituir-se como eu, como diria Louis Lavelle. Então, a reacção dela não é assim tão desproporcional, porque não é um simples brinquedo que se perdeu. É uma reacção exagerada porque ela ainda não percebe que vai ter muitos objectos e experiências para se constituir como pessoa ou como eu.
Além disso, não são apenas as crianças que reagem assim. Muitos adultos também constituem a sua identidade a partir de certas ideologias, crenças, gurus, etc. Depois, quando alguma coisa falha, o mundo delas desaba. Mas neste caso é uma espécie de infantilidade consolidada, que não tem justificativa. Há muitos testemunhos de pessoas que viveram em regimes totalitários e que não se entregaram à propaganda.
O mundo das crianças ainda tem poucos elementos, poucas experiências, por isso é de esperar que cada uma delas tenha um grande peso. Mas não me parece que a maior parte das pessoas aprenda a ter uma reacção emocional muito mais sofisticada. A diferença é que o mundo dos adultos tem muito mais elementos e tudo se torna mais ou menos irrelevante. Porém, o sujeito que tem uma vida monótona, previsível e não quer outra coisa, se de repente é despedido e a mulher ameaça deixá-lo, ele fica para morrer. O terapeuta que vai lidar com ele vai tentar fazer com que ele perceba que o mundo não acabou, que pode fazer outras coisas, que há novas perspectivas que podem ser exploradas, etc. No fundo, o que os pais fazem para consolar os filhos é o mesmo, ou seja, tentam mostrar que não é o fim do mundo quando um brinquedo se tenha perdido, que há outros brinquedos que podem entrar na vida deles.
Quem não consegue recordar as suas experiências de infância tem dificuldade em entender a quantidade de pequenas coisas, quase todas indizíveis, que elas comportam. Se ela está meia hora de volta de uma coisa, ela não está apenas a treinar a sua coordenação motora ou a estimular as suas ligações neuronais. Esta é a visão do adulto realmente desinteressado da realidade alheia.
Quando a criança brinca com alguma coisa, nuns 15 minutos a imaginação dela pode ter criado dezenas ou centenas de imagens, cada uma delas com reacções emocionais associadas, assim como podem ter formado vários pensamentos. As crianças muitas vezes riem “do nada”, ou estão sorridentes quando estão a brincar com alguma coisa, mas isto é apenas sinal de que pequenos raciocínios que ali se geram e, de repente, a lógica subjacente parece ser trapaceada.
Q23. Ok… Entramos aqui num outro tema que não estava previsto, ou talvez estivesse. Afinal, chegamos a falar da graça com o sentido de engraçado.
Corremos sempre o risco de aparecerem temas inesperados quando analisamos experiências reais. Mas o riso das crianças é uma das coisas mais inspiradoras do mundo e certamente se nos detivermos uns minutos neste assunto vamos tirar algo interessante para o tema da gratidão.
Os animais não riem porque não têm profundidade lógica suficiente. Eles são estritamente pragmáticos. As coisas para eles são úteis (servem para comer, para dar um alívio ou um prazer), perigosas ou irrelevantes. É como se eles só tivessem umas poucas categorias de pensamento prontas, que jamais são questionadas, e as coisas que aparecem vão sendo encaixadas nestas categorias segundo certos algoritmos instintivos. Há algumas coisas que nos podem fazer questionar se todos os animais são assim tão limitados, como no caso daqueles que fazem uso de ferramentas rudimentares. Há também um vídeo, não sei se na Índia, que descem das árvores para puxar a cauda a tigres. Parece que estão ali a fazer uma troca de categorias, em que a cauda agora é tratada como se fosse uma liana. Mas não há realmente uma prova de que isto contenha realmente um insight sobre os elementos usados na lógica.
Agora, quando uma criança brinca com um objecto que tem uma certa posição natural, como ficar de pé, e depois constata divertida que o pode fazer ficar deitado, não há dúvida que isto implica um insight sobre a categoria da posição. Neste caso, não se trata de uma troca de categorias, mas de um câmbio entre dois modos de aplicar a mesma categoria. Ela pode também achar divertida uma animação onde uma personagem sofre transformações mágicas porque capta o jogo de categorias envolvidas. Por exemplo, se um monstro de repente fica muito forte ou muito grande é porque teve a categoria da quantidade alterada para além do que seria expectável. Também se usam frequentemente na animação mudanças inesperadas nas cores de certas personagens. Neste caso, o jogo dá-se na categoria da qualidade.
Estas transformações inesperadas chamam a nossa atenção e podemos encará-las como divertidas porque os humanos têm um entendimento das categorias que não é apenas mecânico. Quando um animal vê estas transformações, aquilo não significa nada para ele ou, no máximo, ele pode ficar assustado porque alguma coisa ali funcionou como um sinal de perigo. Nós também captamos muitos destes sinais de perigo, mas imediatamente percebemos que é um perigo fingido e achamos graça. Melhor dizendo, nem sempre achamos graça e o que é que determina o ponto onde algo é ou não é engraçado para nós? Está na inteligência ali envolvida. Quando uma piada é demasiado óbvia e previsível, dizemos que aquilo é muito idiota, sem graça. Às vezes podemos achar algo engraçado quando é muito imprevisível, mesmo que seja idiota. O perfil da nossa inteligência vai ter uma certa relação com aquilo que classificamos como engraçado. Não existe uma piada universal, que todos acham igualmente engraçado, porque as inteligências não são todas iguais.
Esta constatação deveria servir de sinal de alerta para a participação em certos grupos. Nós vemos que as pessoas em certos grupos riem das mesmas coisas e quase da mesma forma, o que significa que estão num processo de condicionamento da inteligência. Isto faz parte do fenómeno do imbecil colectivo, de que falava o professor Olavo, embora acho que ele nunca escreveu especificamente a respeito, mas percebeu de certeza porque alguns comentários dele insinuam algumas destas coisas.
O humor pode estar também associado à troca dos modos de predicação ou à construção gramatical, mas aí a criança já tem mais dificuldade em entender, porque não tem domínio suficiente da linguagem. Por exemplo, podemos dizer uma coisa sugerindo que está a ser predicada de modo universal, mas afinal é de modo particular. Outro exemplo, é quando um aparente verbo revela-se como um nome (como o famoso ”hospedar”).
Falar de humor quando tratamos do tema da gratidão não é uma coisa muito óbvia, nem era aquilo que inicialmente tenha pensado, mas não é um aparte. O humor faz parte da experiência imersiva da criança, porque o humor está embutido na realidade. Ou podemos dizer que o humor é uma das nossas respostas à realidade quando ela se mostra não apenas complexa, mas inesperada. Contudo, o humor diz-nos que o inesperado não é para temer ou para ficar perturbado, pelo menos não em demasia, porque a realidade não é um caos mas segue uma ordem.
Estes dois elementos, de caos aparente e ordem, aparecem também nas experiências infantis. Quando as crianças brincam com alguma coisa, frequentemente parecem muito desarrumadas, mas elas procuram sempre seguir algum tipo de ordem, ou constroem algo ordenado. Mesmo quando elas destroem alguma coisa, o que elas estão a fazer é um teste aos limites da ordem, não são niilistas prematuras. Claro que na prática, os pais vão ter que impor alguns limites nesta experimentação, ou tudo ficaria desarrumado.
Q24. Depois de tudo o que foi dito, podemos definir ou pelo menos identificar de forma mais clara o que é a gratidão ou é preciso acrescentar alguma coisa?
Talvez apenas voltar a assinalar o elemento de dádiva. Toda a variedade, riqueza, ordem e até humor presentes na realidade não existem por uma necessidade metafísica. Uma das ambições da ciência é explicar o funcionamento de todas as coisas a partir de umas poucas leis. Mesmo se isso fosse possível, continuaríamos a desconhecer o motivo dessas leis existirem, de terem as consequências que têm e por que é que não existem outras leis. Se as coisas existem e não teriam que existir é porque existem gratuitamente. Isto é algo negado por certas cosmovisões, que implicitamente sugerem que nada é de graça. Claro que as trocas e os compromissos ocorrem incessantemente. Já Anaximandro dizia que as coisas pagam umas às outras a injustiça cometida. Mas todo o movimento da natureza, todas as mutações, gerações e até corrupções (em sentido aristotélico), constituem uma enorme dádiva. É um espectáculo para nós, no qual também participamos.
O fascínio que as crianças têm pela realidade é um sinal de que elas têm uma intuição directa do mundo como dádiva. É como se nelas já estivesse embutida a famosa questão filosófica: “Porque existe o ser e não o nada?” Mas em vez de nos encerrarmos numa experiência mental para tentarmos responder a esta questão, podemos dar uma resposta existencial, que é nos maravilharmos com a riqueza do ser e consentirmos participar nele de uma forma cada vez mais consciente.
Face à realidade diante de nós, que inclui a nossa própria existência, podemos dizer que as coisas são boas e que o conjunto é muito bom, o que não exclui os elementos de desordem ou de mal. Podemos aceitar a bondade do mundo como um dado de fé, ou como uma doutrina filosófica, como faz Platão, em que o Bem supremo sustenta tudo o mais. Ou, então, podemos simplesmente recordar as nossas experiências infantis, que têm como pressuposto precisamente a bondade do mundo.
Q25. Então, o que é a gratidão?
Aqui chegados, podemos dizer que a gratidão é a nossa resposta à bondade do mundo. Esta bondade revela-se numa riqueza de formas e numa ordem implícita em tudo. Estas coisas não estão ocultas, mas também não se revelam logo na totalidade. Ou seja, elas revelam-se na proporção do nosso empenho ou amor pela realidade e prestam-se a ser manipuladas e entendidas.
Heraclito (ou Heráclito) disse que a natureza adora esconder-se. Podemos ver isto pela negativa, como se o mundo fosse uma coisa impenetrável, cheio de perigos escondidos, etc. Mas podemos ver esta ocultação como se fosse uma pedagogia que apenas nos recompensa quando temos a atitude certa. Assim já nos aproximamos mais das Sagradas Escrituras, que dizem que a natureza revela a glória e o amor de Deus.
Ou seja, as coisas oferecem-se a nós para serem manipuladas e entendidas. A expressão básica da gratidão é o nosso agir com as coisas e nos maravilharmos com elas.
Nisto tudo, falta apenas o nosso agradecimento explícito, que é aquilo que normalmente se chama de “expressão da gratidão”. Será que é apenas uma formalidade dispensável? É apenas uma camada verbal sem importância? Não necessariamente. Apesar de termos de ensinar filhos a dizer “obrigado” quando eles recebem um presente, elas também agradecem espontaneamente muitas vezes. O que elas não fazem naturalmente é agradecer antes de terem experimentado as coisas e por isso têm que ser ensinadas sobre a etiqueta. Às vezes é o olhar delas que exprime o agradecimento, outras vezes dão abraços, outras vezes agradecem porque gostaram muito daquele dia. A minha sensação é que, por vezes, os filhos abraçam os pais não porque estão emocionalmente carentes ou por alguma razão desse género, mas justamente por agradecerem a presença deles nas suas vidas.
Apesar das crianças não terem grande entendimento do bem e do mal em situações morais complexas, elas entendem bem a bondade no sentido mais imediato, das coisas que se oferecem e elas respondem a isso. Aceitar as coisas que se oferecem e agir com elas, nem que seja apenas apenas pela observação já é uma forma de agradecimento. Isto vai de encontro ao que disse o Santo Padre de Pio de Pietrelcina, já num contexto religioso: “Agradecer é reconhecer a bondade de Deus nas nossas vidas”. Mas parece-me que isto só tem um alcance espiritual quando é um prolongamento das experiências infantis. Se alguém tem uma visão fria e desligada do mundo, como vai poder reconhecer bondade na sua vida? A bondade tem que ser experimentada sem reservas, ou seja, o Reino dos Céus é apenas para aqueles que se tornam como criancinhas.
