A Few Good Men
“Uma Questão de Honra” (PT) | “Questão de Erro” (BR)
Este texto é para aqueles que já viram o filme A Few Good Men, de preferência mais do que uma vez. Contém uma descrição detalhada do enredo, assim como a interpretação de algumas das cenas mais decisivas. Não pretende ser uma crítica ao filme, nem desvendar aquilo que seria a “verdadeira” intenção que o roteirista ou do director pretendiam transmitir com esta obra. Esta análise enquadra-se num âmbito mais alargado de “catalogação” de personagens e situações humanas, cuja fonte principal é a literatura universal. O método utilizado, se assim podemos chamá-lo, resume-se ao testemunho de impressões genuínas. Por uma questão de simplicidade, a narrativa é descrita no tempo presente.
Cenas e frases icónicas
Há filmes que ficam conhecidos por certas frases. Por exemplo:
“I’m gonna make him an offer he can’t refuse.” (The Godfather, 1972);
“Frankly, my dear, I don’t give a damn.” (Gone with the Wind, 1939);
“We’ll always have Paris.” (Casablanca, 1942);
“No… I am your father.” (Star Wars, Episode V – The Empire Strikes Back, 1980);
“I’m Bond. James Bond.” (Dr. No, 1962);
“I see dead people.” (The Sixth Sense, 1999);
“Houston, we’ve had a problem.” (Apollo 13, 1995);
“I’ll be back.” (The Terminator, 1984);
“There’s no place like home.” (The Wizard of Oz, 1939);
“We’re gonna need a bigger boat.” (Jaws, 1975);
“You’ve gotta ask yourself one question: «Do I feel lucky?» Well, do ya, punk?” (Dirty Harry, 1971);
“Rosebud!” (Citizen Kane, 1941).
A lista poderia continuar, mas não se iria prolongar indefinidamente. Dos milhares de filmes que já foram produzidos, apenas uma percentagem ínfima ficou conhecida do grande público por uma frase ou cena icónica. Dentro dos filmes que caem nessa categoria, quase todos, para não dizer todos, são de Hollywood. Ou seja, uma dos motivos do sucesso de Hollywood não tem a ver apenas com a sua capacidade promocional, que traz pessoas para dentro das salas de cinema, mas prende-se também com a habilidade de fazer com que algo das obras saia cá para fora e se integre na cultura geral, como um novo produto linguístico ou, mais genericamente, como um novo elemento do imaginário colectivo. Extravasa-se assim, na medida em que os símbolos extraídos dos filmes são reconhecidos como moeda de troca na experiência corrente, com a experiência solitária do cinema, que por norma se assiste numa sala escura, largamente ignorando a presença dos outros espectadores.
Alguns dos filmes listados antes são bastante bons, mas outros são apenas medianos. Todos os exemplos que escolhi são de filmes relativamente antigos. Apesar de poder ter incluído frases de filmes mais recentes (depois do ano 2000), não me parecem ser tão icónicas ou inspiradas como aquelas mencionadas. Tal deve-se não apenas a uma perda de eficácia da indústria cinematográfica, mas engloba-se num fenómeno mais alargado de desaparecimento de uma cultura da qual todos faziam parte em alguma medida. O cenário actual é único em termos históricos, já que nunca existiram tantos produtos culturais, mas os indivíduos não pertencem a nenhuma cultura, vivendo cada um na sua bolha feita de retalhos, que nem sequer é partilhada pelos membros mais próximos da sua família.
Estas frases icónicas de filmes caem dentro de uma única categoria? Não. Algumas servem de clímax, outras funcionam como pontos de inflexão da narrativa, outras ainda obtém sucesso por terem captado e resumido certas situações humanas, e temos ainda aquelas que funcionam como uma imagem de marca. Embora muitos argumentistas se esforcem para que alguma das suas frases possa ser “imortalizada” ao ser transposta para a cultura de massas, tal só acontece com uma certa confluência de factores, que me parece largamente acidental. Milhares de frases e cenas inesperadas aparecem no cinema, mas apenas umas poucas tornam-se moeda de troca da linguagem comum.
Temos ainda em que uma cena de um filme se torna icónica, mas o significado que obtém na cultura de massas está bastante desviado daquele que possui no original. É esse o caso do filme sobre o qual versa este texto, A Few Good Men (1992). A frase que sobressai nesta obra é: “You can’t handle the truth”. Em termos literais, significa algo como “Você não consegue lidar com a verdade”. Contudo, pode talvez ser traduzida como “Você não consegue suportar a verdade”, ou seja, as pessoas dizem que querem a verdade, mas depois não têm estrutura emocional para aguentá-la.
A cena inteira é ainda mais icónica, devido às interpretações e à tensão criada, tendo sido recortada e publicada inúmeras vezes na Internet, muitas vezes pela mão de pessoas que pretendem mostrar ali o seu cartão de visita, como se estivessem apresentando a si mesmas como baluartes onde a verdade perseguida se abriga. Aparentemente, a cena é auto-explicativa e não precisa de grandes interpretações. Um advogado de defesa (interpretado por Tom Cruise) pressiona uma testemunha (interpretada por Jack Nicholson), que acaba por ceder e revelar tudo o que pretendia manter escondido, um pouco à semelhança do esquema da antiga série Perry Mason. Porém, veremos que esta primeira apreciação pouco mais é do que uma comédia de erros.
Enquadramento
As personagens de A Few Good Men são quase todas militares, mas o filme não tem praticamente nenhuma acção, pelo menos envolvendo as personagens principais. Por outro lado, também não podemos dizer que é um típico filme de tribunal, não apenas por se tratar de um tribunal militar. A verdade não é revelada ao espectador numa confrontação final, uma vez que este já vem tendo conhecimento dela no decorrer dos eventos. São as próprias personagens que são reveladas com o desenrolar dos eventos, para o melhor ou para o pior.
O filme é baseado num incidente real de praxe (trote) ocorrido na base naval de Guantánamo, onde um soldado quase morreu, muito antes do local ter ficado conhecido por terem sido transferidos para ali suspeitos de terrorismo, após os ataques do 11 de Setembro de 2001. Aaron Sorkin teve conhecimento destes eventos (que teriam ocorrido em 1986) e escreveu uma peça de teatro baseada neles, que viria a ser encenada na Broadway em 1988 e mais tarde teria uma versão cinematográfica, em que o roteiro coube ao mesmo autor, com produção e realização de Rob Reiner.
No filme, o soldado que é atacado, William Santiago, acaba por morrer. Dois militares são presos e têm de enfrentar o tribunal militar: o cabo Harold Dawson e o soldado Louden Downey. A investigação preliminar levantou a hipótese de que o ataque tentou impedir que Santiago denunciasse Dawson a respeito de um incidente ocorrido na fronteira. A base de Guantánamo está na ilha de Cuba e as imagens iniciais mostram a cerca que separa a base naval americana do restante da ilha comunista. Contudo, a tenente Joanne Galloway (interpretada por Demi Moore) suspeita que o incidente teria outra motivação, sendo antes uma punição não oficial - conhecida como code red (“código vermelho”) - usada contra Santiago devido ao seu fraco desempenho. Ela mesmo se oferece, perante os oficiais superiores do tribunal da marinha, para defender os fuzileiros, que serão transferidos para o território continental.
Se a nossa atenção está vagueante nesta parte do filme, facilmente perdemos de vista o quão “explosiva” é esta situação. Os “códigos vermelhos” seriam algo do passado e já tornados ilegais, mas aparentemente ainda ocorreriam, sendo embaraçoso que tal viesse ao conhecimento do grande público a propósito de um incidente que envolveu a morte de um militar. Não é dito explicitamente, mas um “código vermelho” não é uma simples partida entre colegas, já pressupondo que as chefias militares admitem tais práticas ou, pior ainda, que as ordenam extra-oficialmente. Desta forma, deixamos o contexto de um incidente isolado e é toda a instituição militar, ou pelo menos a marinha (neste caso), que começa a ser colocada em causa, porque se ocorreu num lugar, é de suspeitar que ocorra em muitos outros.
A solução mais cómoda para este imbróglio seria fazer um acordo judicial e evitar os holofotes que um julgamento pode trazer. Contudo, para isso é arriscado ter Galloway como advogada dos reclusos, porque ela é uma boa investigadora, mas com pouca experiência de litigação. Esse papel parece adequar-se perfeitamente ao Tenente Daniel Kaffee (papel interpretado por Tom Cruise), auxiliado pelo tenente Sam Weinberg. Kaffee não tem muito tempo de experiência como advogado de defesa, apenas 9 meses na marinha, mas durante os quais já fez 44 acordos que evitaram julgamentos (ele brinca com a situação e diz que com mais um acordo irá ganhar um faqueiro). Temos uma amostra da sua perícia de litigante quando faz um acordo com alguém da procuradoria ao mesmo tempo que continua batendo bolas de baseball. Na verdade, ele nunca foi a tribunal e parece ter sido escolhido para este caso precisamente por isso, ou seja, para que tudo se resolva rapidamente num acordo com o procurador.
Quem não se resigna com esta situação é a tenente Galloway. Embora impedida de servir como advogada de defesa, ela tem ainda alguma margem de manobra, já que pertence aos Serviços Internos e está um grau acima de Kaffee na hierarquia militar (ele é apenas Liutenent e ela é Liutennent Commander). Galloway coloca Kaffee e Weinberg a par do caso: o soldado que morreu, Santiago, tinha pedido para ser transferido, tendo escrito cartas ao comandante da base, a generais e até para o Senado, mas não obteve ajuda. Como última medida, escreveu para o Serviço de Investigação da Marinha, oferecendo informações sobre o incidente envolvendo o cabo Dawson, isto em troca da sua transferência. Kaffee imediatamente percebe que as chefias militares não querem a publicidade de um julgamento e diz a Galloway qual será a sua proposta de acordo (pena de 12 anos).
Temos aqui duas posturas antagónicas. Galloway é insegura nas suas relações pessoais, mas quer ir a fundo nas questões. Por outro lado, Kaffee é o jovem arrogante, cheio de confiança depois de ter tido sucesso fazendo acordos. Contudo, é uma confiança precária, porque apenas litigou casos menores. Mais tarde ficamos a saber que o seu pai tinha sido um advogado brilhante e ele de alguma forma quer sair da sua sombra e ainda tem muito que provar. Ele é prático e quer ter sucesso. Ela é um tanto utópica e quer a verdade. Galloway diz a Kaffee que irá garantir que ele fará o seu trabalho, mas este parece pouco ligar, estando aparentemente mais preocupado com o baseball. No meio está Weinberg, o soldado e advogado discreto, que não se importa de brilhar pouco e que não se importa de fazer o trabalho burocrático, mas que de alguma forma ajuda a fazer a ligação entre os outros dois.
Em Guantánamo antes da morte de Santiago
A narrativa volta um pouco atrás e mostra a reacção do Coronel Coronel Nathan Jessep (papel interpretado por Jack Nicholson), comandante da base naval, ao ler uma carta de William Santiago na presença dos seus oficiais, sabendo que ele já tinha escrito cartas para tudo o que é sítio. O que irrita Jessep na postura de Santiago é o facto deste ter passado por cima da linha de comando e ameaçado denunciar um colega (Dawson, um dos que lhe aplicou o “código vermelho”). O Primeiro Tenente Jonathan James Kendrick (interpretado Kiefer Sutherland) propõe tratar do assunto e percebemos que seria de forma dura. O Tenente Coronel Matthew Andrew Markinson propõe antes a transferência de Santiago, o que parece ser a saída mais lógica, já que põe um fim a todos os problemas. Jessep ridiculariza esta ideia de forma teatral e diz que o melhor é entregar toda a base para os cubanos. Afirma que a responsabilidade dos oficiais não é optar pelas saídas fáceis, mas é treinar bem os soldados e proteger a nação. Assim o comandante encarrega Kendrick de treinar Santiago, mas Markinson diz que isso é um erro. Em privado, Jessep diz a Markinson para jamais voltar a questioná-lo diante de um subordinado, mas foi ele mesmo que quase o obrigou a isso depois de ter rejeitado inicialmente que falassem a sós.
Temos aqui novamente um trio. Kendrick é oficial fanático, que pode ser um canalha para os subordinados, mas que apresenta resultados. É o tipo útil, que obedece cegamente à hierarquia de comando e está ávido por mostrar serviço. Markinson é quase o oposto. Foi colega de Jessep, mas não foi promovido tão rapidamente, talvez por ser demasiado “macio” em algumas circunstâncias. É o sujeito honrado, que quer fazer a coisa certa, que pretende resolver os problemas, mas eventualmente pode se tornar demasiado relaxado em relação à exigência de excelência dos soldados e que também nunca tem uma atitude decidida para defender os seus princípios. É importante notar que os eventos se passam, em teoria, em 1986, quando ainda existia a Guerra Fria, ou seja, numa altura em que não se poderia dar mostras de fraqueza. Jessep é o sujeito ambíguo. Por um lado, parece levar realmente a sério a sua missão de defesa do país. Por outro lado, a defesa da pátria e a hierarquia de comando parecem ser usados por ele também como pretextos para afirmar o seu próprio poder e até para dar azo a algum sadismo.
Um estranho Código
Galloway tenta motivar Kaffee (cujo currículo e histórico familiar ela foi atrás, depois do primeiro contacto entre ambos) para a defesa de Dawson e Downey, que entretanto já foram transferidos para uma prisão em Washington. Diz ela que a morte parece não ter sido deliberada, mas o que chama a atenção de Kaffee é a menção ao code red (“código vermelho”), que ele não sabe o que é. Kaffee e Weinberg entrevistam os prisioneiros, que mostram uma grande rigidez militar. Confirmam que aplicaram um “código vermelho” a Santiago, mas negam que o pano que lhe enfiaram na boca tivesse alguma substância tóxica. Contudo, alegam que as motivações para terem feito tal coisa não se prendem com o facto dele ter ameaçado denunciar Dawson, quando este supostamente disparou para o outro lado da fronteira, aparentemente sem provocação da sentinela do outro lado (o seu “espelho”). Agiram como agiram porque Santiago não seguiu a hierarquia de comando (devia ter primeiro falado com Dawson, depois com o sargento, e assim por diante). Dawson diz a Kaffee que a intenção de terem aplicado o “código vermelho” era ensinar Santiago a pensar na Unidade antes de pensar em si mesmo e também para que ele aprendesse a respeitar o Código.
Aparentemente, o grande problema de Santiago é não ter seguido o Código. Mas que significa este Código? Responde Dawson: “Unidade, Corpo, Deus, Pátria”. Kaffee e Weinberg ficam incrédulos com esta resposta e Dawson olha para eles com desprezo por não terem captado a importância do Código. Claramente os fuzileiros não demonstram apenas rigidez, mas comportam-se como se fizessem parte de alguma sociedade secreta, olhando com desprezo para os “não iniciados”. Kaffee deixa uma mensagem a Dawson tentando que este perceba a gravidade da situação deles: “Eu sou o vosso único amigo”.
Kaffee e o Capitão Jack Ross (papel interpretado por Kevin Bacon) encetam uma conversação para fazerem um acordo, como habitualmente faziam. Ross propõe 20 anos de prisão para os fuzileiros e Kaffee quer 12 anos. Kaffee menciona o “código vermelho” para conseguir um acordo melhor, mas Ross já estava preparado para isso, porque confidencia-lhe que Kendrick reuniu os soldados da base e ordenou que não tocassem em Santiago. Ross aceita os 12 anos de prisão para os fuzileiros, mas Kaffee não se compromete logo porque algo naquela conversa lhe pareceu estranho. Em conversa com Weinberg, Kaffee diz que está inclinado a aceitar a proposta do procurador e aquele diz que é um bom acordo. Mas algo intriga Kaffee: a menção a um tal de Kendrick, que ele nem sabe quem é. O procurador está um passo adiantado em relação a eles.
Novamente em Guantánamo
Galloway obtém permissão de uma familiar de Downey para acompanhar o caso (a tia Ginny), deslocando-se também na viagem a Cuba juntamente com Kaffee e Weinberg. Os advogados de defesa encontram-se com as chefias da base e ficam a saber que o Coronel Jessep conheceu o pai de Kaffee, assim como Markinson, o número dois da base. Quando visitam o lugar onde Santiago foi atacado, Kendrick demonstra o seu desprezo pela marinha, que apenas fornece transporte aos fuzileiros quando estes vão lutar a alguma parte, segundo as suas palavras. Entretanto, Kendrick tinha confirmado a versão do procurador sobre os eventos, de que ele mesmo tinha ordenado para não tocarem em Santiago. Quando Galloway questiona Kendrick se acredita que Santiago foi assassinado, este responde que ele morreu porque não tinha um código, não tinha honra… e Deus estava a ver. Novamente surge a menção ao código.
Na cena seguinte temos um almoço entre os advogados visitantes e os oficiais da base. O comandante Jessep é o centro das atenções. Consegue ser um perfeito gentleman, com uma prosápia que agrada a todos. Contudo, quando no final Kaffee faz-lhe algumas perguntas, quase que por mero dever de cumprir as formalidades, Jessep assume um tom entre o irónico e o ameaçador. Obviamente que o Coronel já tinha tudo previsto e mente descaradamente ao dizer que já estava previsto Santiago ser transferido, com vôo marcado para às 6 horas da manhã do dia fatídico.
Kaffee dá-se por satisfeito, mas a Tenente Galloway, contra a vontade daquele, insiste em fazer mais algumas perguntas ao comandante da base, questionando-o sobre se tinha falado com o médico e, sobretudo, questiona-o se os “códigos vermelhos” continuavam a ocorrer naquela base. Jessep começa por criar um desconforto, fazendo alguns comentários de teor sexual, mas Galloway não se deixa intimidar e insiste. Em tom ameaçador, o comandante aconselha-a a ter cuidado com o tom. Sabemos já de antemão que ele está bem relacionado e fala-se nos jornais que irá liderar o Conselho Nacional de Segurança. Jessep. Talvez por sentir-se intocado, Jucesp dá-se à liberdade de confessar que, embora oficialmente desaprove o “código vermelho”, porque é essa a opinião do alto comando, na verdade acha que é uma prática de ensino valiosa e se acontecer na sua unidade sem que ele saiba, que assim seja. Acrescenta:
“Tomo o pequeno-almoço a 250 metros de 4 mil soldados treinados para me matar e não pensem, nem por um segundo, que podem vir aqui mostrar um distintivo e deixar-me nervoso”.
O almoço está aparentemente terminado, mas Kaffee faz um pedido que parece inesperado a Jessep: quer uma cópia da ordem de transferência de Santiago para o arquivo. Este concorda, diz que está ali para ajudar, mas no último momento não consegue suster a sua soberba e diz que Kaffee tem de pedir de forma educada. Obviamente que Jessep quer mostrar-se superior no confronto psicológico com o advogado, que acaba por fazer o pedido com extrema educação. Contudo, ao mostrar que não se consegue conter e que não resiste em afirmar o seu ego, Jessep dá pistas de como poderia vir a ser atacado.
A cena do almoço talvez mereça uma atenção mais detalhada, pois resume a situação onde se chegou e já indica muito do que vem de seguida. Ela tem três trios de personagens. O primeiro trio está ausente, sendo composto pelos três fuzileiros que estiveram envolvidos no “código vermelho”. Obviamente não podem estar ali presentes, uma vez que um já morreu e os outros estão reclusos, mas são eles o motivo daquele evento. A ausência parece também simbolizar a forma como tudo parece se encaminhar, ou seja, que o futuro deles será decidido por outros, por meio de acordos e formalidades. Depois temos o trio de oficiais da base naval. Apesar da mesa ser redonda, o ponto de filmagem inicial apresenta Jessep na posição mais central, de domínio da situação. À sua esquerda está Kendrick, o cão de fila, muito rígido, com um misto de orgulho, pela sua posição ao lado no número um, e de desprezo pelos visitantes. À direita de Jessep está Markinson, acanhado, constrangido por ter de desempenhar um papel de conivência naquela farsa. Ele é o número 2 na hierarquia da base naval, mas está relegado para uma posição de irrelevância, porque nem tomou uma acção decidida contra o comandante e nem se colocou incondicionalmente ao lado deste, como fez Kendrick. Do lado oposto a Jessep está Kaffee, já preconizando o confronto final. À sua direita está Weinberg, discreto e quase não damos por ele, mas como que representando a lealdade invisível, que é um suporte valioso e que só costumamos dar por ela quando nos falta. À esquerda está Galloway, que já tentou reaproximar-se de Kaffee, mas ainda não têm um plano comum.
No final do almoço, mas ainda à mesa, o enquadramento muda, passando a mostrar sobretudo Jessep em oposição a Kaffee e Galloway. Há uma excepção, quando Jessep diz que Santiago ia ser transferido e Markinson aparece sem expressão, deixando passar a mentira em claro. O efeito geral da cena muito se deve à performance dos actores. Demi Moore (Galloway) desempenha o papel da personagem retraída, em posição desfavorável, aparentemente dominada, inofensiva, mas que não abdica das suas ideias e não deixa de fazer as perguntas incómodas, mesmo quando é colocada numa situação confrangedora. Desta forma, ela leva Jessep a admitir com orgulho que é favorável aos “códigos vermelhos”. Exteriormente ela não pode se mostrar transtornada quando é humilhada, à semelhança de Penélope ante os saqueadores do palácio de Ulisses, mas no fundo ela só quer sair dali o mais rápido possível. Não se mostra artificialmente agressiva, masculinizada, como seria o caso se o filme fosse produzido nos tempos actuais, porque a sua força está em não vacilar e manter o seu propósito inicial.
A personagem de Tom Cruise (Kaffee) sofre uma transformação em poucos minutos. Começa por ser o sujeito que ainda se comporta um pouco de forma adolescente, confiando no seu poder verbal, de quem faz umas piadas e consegue sempre chegar a um acordo judicial. Quando faz umas perguntas a Jessep, apenas para cumprir formalidades, ainda é um tanto provocativo, mas não se mostra realmente belicoso, sendo mais uma espécie de irreverência juvenil inconsequente. Quando Galloway faz as perguntas incómodas, ele tenta impedir, de modo a que tudo se resolva sem incómodos de maior. Mas quando Jessep responde de forma ameaçadora, no meio de comentários sexuais, Kaffee abandona a sua postura adolescente e faz algo que talvez ele mesmo não tivesse previsto, que foi pedir a ordem de transferência de Santiago. Mas esta nova postura de seriedade ainda não está firmada e é um tanto incómoda para ele. Então Jessep, depois de um primeiro momento em fica surpreendido, sente o cheiro do sangue na água e, como um tubarão, fila os seus dentes em Kaffee e exige que ele peça a ordem de transferência de Santiago com educação, para que se cumpra ali uma espécie de ritual de humilhação. Poderiam ter acontecido três coisas. Primeiro, Kaffe poderia ter explodido numa raiva adolescente de indignada e, assim, iria faltar ao respeito a um oficial superior. Segundo, poderia ter voltado atrás com o pedido para evitar constrangimentos ainda maiores. A terceira opção é a que veio a ocorrer, ou seja, ele submete-se à humilhação, mas também não recua no seu pedido.
Repentinamente, Kaffee já não pode mais fazer de conta que é um adolescente, mas agora vai ter que decidir que tipo de adulto vai ser, ainda que não se dê conta disso. Como reagir a eventuais humilhações? Em certos momentos chave, a resposta a isso vai determinar todo um futuro padrão de conduta. Talvez não por acaso, várias das opções possíveis estão representadas nos convivas daquela mesa. Poderá se tornar como Kendrick, que depois de sofrer humilhações passou a ter gosto em humilhar outros. Ou poderá ser como Weinberg, que aceita a humilhação com resignação, contentando-se com uma posição discreta. No caso de Markinson, que foi também humilhado por Jessep, ele parece ficar num estado incerto, em que nem se revolta e nem se resigna, o que pode criar um estado de tensão intolerável. Curiosamente, naquele momento Kaffee parece adoptar a postura feminina, a de Galloway, ou seja, ele sofre a humilhação, não a tenta esconder, mas o seu sofrimento é sobretudo interior, mas ele também não volta atrás na sua intenção.
Contudo, toda esta cena gira em torno da performance magistral de Jack Nicholson (Jessep). Ele consegue ser o anfitrião que delicia todos com as suas histórias de guerra. Quando a conversa muda de figura, com as perguntas sobre a morte de Santiago, transfigura-se rapidamente no sujeito ameaçador, ordinário, manipulador e egocêntrico. Nicholson faz isso alterando o tom de voz e o olhar, como seria de esperar, mas também serve-se de pequenas pausas incómodas e esboça sorrisos irónicos, que talvez nem estivessem previstos. Face a isto os outros actores em cena parecem ter ficado verdadeiramente constrangidos pelo inesperado, o que aumenta o realismo da cena.
Uma Questão de Honra?
Kaffee pergunta a Dawson e a Downey se Kendrick lhes tinha ordenado um “código vermelho” em privado. Estes confirmam, o que leva o advogado à indignação por terem ocultado uma informação tão relevante. Não tinham dito porque não lhes tinha sido questionado. Especificam que a ordem tinha sido dada em privado, pouco depois de Kendrick ter dito ao restante pelotão para não tocarem em Santiago. Ou seja, a primeira ordem visava apenas obter uma prova de que as chefias militares da base desaprovam os “códigos vermelhos”.
Kaffee e Galloway vão até ao procurador Jack Ross para lhes dar a informação, mas este fornece-lhes uma visão realista do caso. Ele tem 23 fuzileiros do pelotão confirmando que Kendrick disse para não tocarem em Santiago e a única hipótese da defesa seria ter o testemunho de Markinson. Só que este desapareceu e, tendo estado na Contra-Espionagem, só será encontrado se quiser. Para mais, Jessep é uma estrela em ascensão e ninguém quer fazer disto um grande caso. Para poupar aborrecimentos a todos, a Divisão deu a Ross a possibilidade de fazer um acordo que dá uma pena quase simbólica aos dois fuzileiros: 2 anos, com liberdade condicional ao fim de seis meses. Galloway quer ir a tribunal, mas Kaffee sabe que é um acordo favorável - e que lhe permite voltar ao seu estilo anterior de vida descontraído - e, para mais, Ross diz que se forem a tribunal, terá que avançar com todas as acusações e é quase certo que os fuzileiros irão receber a condenação de prisão perpétua.
Parece que não há nada que pensar e Kaffee comunica aos prisioneiros o acordo, como se tivesse saído a sorte grande a estes. Inacreditavelmente, estes não querem aceitar. Estão dispostos a aceitar as consequências do que fizeram, mas não podem se declarar culpados porque apenas cumpriram ordens. Kaffee acha inacreditável e questiona se Galloway os instruiu para irem a tribunal, mas não é isso.
A nova menção que Dawson faz ao Código parece ser apenas uma conversa de chanfrados para Kaffee. Dawson diz que se aceitarem o acordo serão banidos dos fuzileiros e eles alistaram-se porque queriam viver segundo um certo código e encontraram isso no corpo de fuzileiros. De forma enfática, diz que não vai se desonrar a si mesmo e ao corpo de fuzileiros apenas para poder estar em casa em seis meses. A sós com Dawson, Kaffee tenta convencê-lo por outra via. Downey idolatra-o e vai Dawson fazer com que ele fique preso para o resto da vida por causa de um código? Dawson pergunta se acha que eles estão certos e Kaffee diz apenas que acha que eles vão perder, ao que o cabo diz que o advogado é um cobarde que não merece vestir o uniforme, recusando-se a fazer continência na sua saída.
Temos aqui duas perspectivas pouco conciliáveis. Kaffee tem a visão pragmática e acha inconcebível que Dawson não aceite um acordo que é quase um milagre. Dawson pensa na honra, mas não em abstracto. Trata-se de uma honra que é validada pelo reconhecimento dos pares e pelo seguimento das normas que todos devem seguir, que fomentam a lealdade. Num contexto como este, o pior de tudo é ser desprezado e punições como o “código vermelho” podem até ser consideradas como formas de tentar recolocar as vítimas no grupo, depois delas terem aprendido alguma lição. Mas obviamente que também se levantam uma série de problemas. Não há garantia que isto não se torne apenas num expediente que os sádicos passem a usar para dar azo aos seus maus instintos. E quando as ordens vêm de cima, têm eles garantia de que as chefias irão responder por eventuais incidentes? A lealdade tem que funcionar nas duas direcções e no caso que temos em mãos as patentes mais altas trataram logo de se furtar às responsabilidades, ficando todas as culpas por atribuir aos dois fuzileiros que executaram o “código vermelho”.
Podemos evocar naturalmente a peça Otelo, de Shakespeare, em que o apego excessivo à honra facilita a manipulação e conduz à tragédia. Também no filme, a existência de práticas como o “código vermelho”, que pretensamente ajudariam a criar um sentido de honra e de pertença a um grupo de excelência, criam pontos cegos naqueles que acreditam piamente na valia de tais expedientes, abrindo o flanco à manipulação. Mais ainda, uma forma de tornar a humilhação, que todos sofrem, mais aceitável é dar-lhe uma justificação elevada, uma utilidade, ou mesmo fazer dela um elemento criador de virtudes. Isto pode de facto acontecer, mas não é uma regra geral. Dependendo das circunstâncias e de outros factores envolvidos, a humilhação tanto pode estimular o desenvolvimento de virtudes como pode ser um forte catalisador para o incrustamento de vícios.
Mas a honra é para o cabo Dawson algo mais do que uma virtude isolada, sendo sobretudo um sinal de que se faz parte de algo, de uma certa cultura de excelência. A vivência atomizada de hoje, mencionada de início, era algo que já se sentia na altura e entrar na vida militar era (e ainda é) uma potencial saída para uma vida sem sentido. Mas não se trata apenas de fazer parte de um um pelotão de fuzileiros. O Código fala também na pátria e em Deus. Por isso, o cabo Dawson questiona Kaffee se eles fizeram a coisa certa. Aos olhos de Deus, as suas acções foram justificadas. Mas o advogado responde apenas pensando apenas lado pragmático, não vendo ou não querendo ver o drama do fuzileiro.
No tribunal
Kaffee ameaça desistir de representar os fuzileiros, pelo que Galloway o espicaça de várias formas para que ele continue, já que nesta altura era óbvio que precisam do talento dele para terem sucesso no tribunal. Ela faz menção a Jessep, dizendo que ele tinha que pedir os papéis para desistir do caso “com educação”, diz que ele não era nada, que era uma espécie de vendedor de produtos duvidoso, que vive na sombra do pai. Mas Kaffee conhecia melhor que ninguém estes truques verbais e não reage a quente.
Depois de reflectir muito, de se ver a si mesmo reflectido num bar num advogado que conta que fez um acordo legal apenas para fazer conversa de engate, Kaffee acaba por comparecer à primeira audiência no tribunal. Declara os seus clientes como inocentes na sua declaração inicial. Os elementos da procuradoria olham com pesar esta decisão, porque sabem que é um caso fácil para eles e, na verdade, não pretendem que os fuzileiros tenham penas pesadas, porque, afinal, todos ali são militares. Kaffee, por sua vez, no final da sessão dá-se conta que foi escolhido para aquele caso precisamente porque nunca tinha ido a tribunal. Mas isso até o motiva a trabalhar com mais afinco com Galloway e Weinberg para preparar a defesa. Depois de preparada a estratégia, de delinear como lidar com as testemunhas e de como influenciar o júri, de como nunca se deve denunciar pela expressão um revés ocorrido, ostentando sempre uma postura de domínio da situação, Kaffee diz para si mesmo que eles serão dizimados.
Terá sido acertada a decisão de irem a tribunal? Como se trata de um filme, já sabemos que é quase certo que irão ter sucesso no final, mas se esquecermos isto, a resposta não é assim tão fácil. Podemos apelar aos princípios, que estão acima de tudo, que se trata de uma questão de honra e assim por diante. Contudo, o próprio cabo Dawson tinha começado a duvidar se tinham feito a coisa certa. Não temos indicação do que terá motivado Kaffee a continuar a defender os fuzileiros e gostamos de ter respostas claras, mas nas situações reais, quando não existe um factor determinante, mas o que há é uma confluência de factores dificilmente conciliáveis, decidimos sem saber bem porquê. Teria Kaffee querido atacar Jessep, atacando o seu cão de fila, Kendrick? Possivelmente, porque a estratégia que eles delinearam passava precisamente por isso, mas decidiram assim porque não havia outras opções viáveis. Ou poderia Kaffee querer sair da sombra do pai, que tinha enfrentado casos difíceis e seria agora a vez dele de fazer o mesmo? Ou seria algum desejo de justiça? Ou talvez apenas a vontade de acompanhar o caso e influenciar nele? Não sabemos, mas somos informados que Kaffee nem sequer considerou todas as variáveis para decidir, porque só depois de declarar os réus inocentes é que se deu conta de que tinha sido escolhido como advogado precisamente para fazer um acordo e não ir a tribunal. Podemos pensar durante muito tempo, mas nada garante que pensamos bem. Muitas vezes nem se trata de pensar bem, mas de encontrar coragem para assumir uma decisão já tomada implicitamente.
Os interrogatórios feitos à primeira testemunha da acusação, o investigador da marinha, têm um efeito um tanto negativo para os réus, já que estabelecem um provável motivo para o assassinato (que está ainda para ser provado). Dawson não foi acusado formalmente por ter disparado para lá da fronteira por falta de provas, mas quem poderia ter dado mais esclarecimentos era precisamente Santiago, que já não pode mais ser questionado. Tal é bastante conveniente para o cabo Dawson.
A segunda testemunha, um cabo pertencente ao pelotão dos réus, ajuda a procuradoria a estabelecer o facto de que o tenente Kendrick tinha ordenado, no dia 6 de Setembro às 16:00, para ninguém tocar em Santiago, apesar deste ter violado a linha de comando. Mais testemunhas destas o procurador chamaria, mas Kaffee aceita este ponto se a procuradoria aceitar que às 16:20 do mesmo dia mais nenhuma potencial testemunha do pelotão esteve no quarto de Dawson e Downey. Está claro que Kaffee vai tentar mostrar que a essa hora Kendrick deu a ordem do “código vermelho” aos réus, mas veremos que isto trará também problemas.
A terceira testemunha é o médico da marinha que determinou que a morte de Santiago foi uma consequência de acidose láctica. O procurador questiona o que pode acelerar o processo da acidose láctica, e o médico responde: “veneno”. O veneno estaria no pano que os réus enfiaram na boca da vítima. Este aceleramento do processo é necessário para explicar a linha temporal entre o ataque a Santiago e a sua morte. O médico é peremptório em afirmar que a causa da morte é envenenamento, mesmo que não tenha sido encontrada nenhuma toxina no pano ou no corpo, porque dezenas de toxinas não são encontradas nos testes. Previamente sabemos que Galloway acredita que o médico mentiu, coagido pelos superiores, mas não é possível provar isso. Então, a estratégia em tribunal de Kaffee passa por questionar o médico se não há nenhuma doença que também possa acelerar o processo da acidose. Sim, por exemplo, problemas cardíacos. Apesar de tal não ter sido determinado nos exames a Santiago, alguns problemas físicos que ele teve podem ser indício de alguma insuficiência cardíaca e o próprio médico recomendou a certa altura que Santiago fosse poupado a grandes esforços (“Não deve correr mais de 8 km durante uma semana”) em consequência de queixas sobre cansaço, dores no peito e dificuldade em respirar, mas não lhe diagnosticou nenhum problema de coração. Kaffee sugere que é conveniente para o médico que Santiago tenha morrido envenenado e não de uma doença de coração que ele não diagnosticou. O comentário é retirado das actas depois do protesto do procurador, mas fica mais ou menos claro que a dúvida é legítima e, na verdade, a cara do médico é de quem foi apanhado com as calças nas mãos.
Contudo, o resultado é um tanto incerto em termos de julgamento. Galloway tenta protestar contra o procurar, que volta a questionar o médico sobre a causa da morte, o que não é aceite, e ela volta a protestar veementemente, sem qualquer resultado favorável. No final, Weinberg acha que ela errou grandemente com aqueles protestos, sendo uma acção típica de quem só vê as coisas pelo lado da teoria, mas acaba por admitir que tem preconceito contra os réus porque violentaram alguém mais fraco. Weinberg pergunta a Galloway o motivo dela gostar dos réus. A resposta dela é que aqueles soldados são os que protegem a fronteira e garantem que eles possam dormir descansados. Weinberg parece aceitar o argumento e diz para os outros não se preocuparem com o médico, porque o julgamento só irá começar na segunda-feira. Ou seja, até aqui seria como as aberturas no xadrez, em que tudo está mais ou menos previsto, mas nada está decidido a não ser que alguém faça um erro grave.
Kaffee e Galloway vão jantar a um restaurante para comer marisco (frutos do mar), mas não é o momento romântico que alguns esperariam. Ela é uma boa advogada, mas apenas na parte da investigação, tendo ficado fascinada com Kaffee ao ver como ele se comportou em tribunal. O júri gosta dele, pelo que ela está totalmente optimista, mas ele é realista e diz que eles vão perder e não será pela margem mínima.
A próxima testemunha da defesa é um cabo da base de Guantánamo que testemunha já ter recebido um “código vermelho” por ter deixado cair a sua arma. Testemunha também que Santiago cometia muitas falhas, mas que nunca recebeu um “código vermelho”, porque Dawson não permitia isso. O procurador Ross usa a testemunha para mostrar que o termo “código vermelho” não aparece em nenhum manual ou documento de qualquer género da marinha. Kaffee reage e diz para a testemunha procurar “cantina” no manual. Também não aparece. Então, como sabe ele onde tomar as refeições? Basta seguir os outros. Ross sorri ante esta investida, que voltou o feitiço contra o feiticeiro, mas ainda nada de importante aconteceu. É óbvio que a defesa vai apostar tudo no interrogatório a Kendrick.
Esperanças Frustradas
Numa cena típica do cinema de Hollywood (embora não sei se típica daquela altura), Markinson aparece no banco traseiro do carro de Kaffee. O Tenente Coronel sabe que sem a sua ajuda os dois fuzileiros em julgamento não terão quaisquer hipóteses. Diz a Kaffee que foi Kendrick que ordenou o “código vermelho”, mas não quer contar como sabe disso e também não quer contar o evento em que o Coronel Jessep deu carta livre a Kendrick. Depois diz que Santiago nunca esteve para ser transferido e ele mesmo assinou a ordem de transferência vários dias depois da morte daquele. Kaffee quer pô-lo a testemunhar. Markinson diz que não se orgulha do que fez e nem daquilo que está para fazer. Na verdade, ele está relutante em testemunhar e a sua intenção inicial era apenas fornecer algumas informações.
Kaffee diz a Ross que encontrou Markinson e que a ordem de transferência de Santiago é falsa. Antes deste testemunhar, Kaffee diz que irá se divertir interrogando Kendrick. O procurador avisa Kaffee que se acusar Kendrick ou Jessep sem provas irá enfrentar o Tribunal Marcial por má conduta profissional, algo que ficará para sempre no seu currículo. Mas não quer intimidá-lo e até tem pena de Kaffee, a quem todos encaminharam para ir a tribunal, incluindo ele em alguma medida. Ross sugere que aquilo que realmente pesou mais na decisão de Kaffee de ir a tribunal foi a memória do pai falecido. Pela reacção de Kaffee, que imaturamente grita a Ross que ele é um péssimo jogador de baseball, parece que este acertou em cheio.
Kaffee interroga Kendrick. O Tenente nem tenta disfarçar o desprezo que tem pelo advogado de defesa. Kendrick testemunha, forçado pelos registos, que Santiago tinha um desempenho abaixo da média (embora inicialmente não quisesse admitir isso) e, pelo contrário, que Dawson tinha um desempenho excelente, mas outros foram promovidos em vez do réu, devido a um último relatório negativo. Tal deveu-se ao facto de Dawson ter ajudado um soldado, Curtis Bell, que ficou confinado por sete dias sem comida e apenas com água e vitaminas, como punição por ter roubado bebidas no Clube de Oficiais. Kendrick não denunciou Bell alegadamente para que este tivesse uma folha limpa, mas Kaffee questiona se tratar o assunto internamente, com confinamento de uma semana, sem comida, não pode ser considerado um “código vermelho”. Kendrick diz que não. Kaffee questiona se Kendrick fez um relatório negativo sobre Dawson por este ter dado comida a Bell no período de confinamento. Ross protesta, mas o juiz quer a resposta. Kendrick diz que Dawson cometeu um crime porque desobedeceu às suas ordens. Questiona Kaffee se um soldado inteligente como Dawson não pode escolher que ordens irá seguir. Kendrick diz que não. Dawson teria ali aprendido a sua lição, como o próprio Kendrick admite, ou seja, naquela base não é concedida liberdade para questionar ordens, sejam elas quais forem. Então, se Kendrick ordenasse um “código vermelho” a Dawson, este também não teria liberdade para se recusar. Cria-se uma pequena altercação no tribunal, com protestos de Ross, mas Kaffee não precisa que o tenente responda, porque o seu ponto já foi assegurado. O procurador questiona apenas a Kendrick se ele ordenou um “código vermelho”, mas este não responde logo, porque ficou raivosamente perturbado por ter sido colocado em xeque por um advogado que não sabe o que é o perigo, o que é ter um código, mas que se vale de normas escritas por alguém que não sabe o que é a realidade da guerra para questionar o modo de vida que eles têm na base naval.
Uma pista que os advogados de defesa seguiram era a alegação do Coronel Jessep de que o primeiro vôo partindo da base no dia fatídico era às 6 da manhã, o que eles duvidaram, mas parece confirmado pelos registos. Markinson tinha dito que Jessep foi responsável pela alteração dos registos da torre e que houve um vôo anterior às 23h, com chegada à 2 da manhã na base de Andrews. Se houvesse intenção de transferir Santiago, teria sido usado esse vôo, já que a ordem supostamente era do dia anterior. Markinson diz que não encontrarão registo desse vôo na base de Andrews, porque Jessep se tornou demasiado poderoso e a sua influência estende-se por toda a parte, supomos.
Galloway acha que se deve tentar encontrar alguma evidência na base de Andrews, mas Kaffee quer apostar tudo no testemunho de Markinson, que não se recusou propriamente, mas também não parece muito entusiasmado com isso. Testemunhando Markinson que falsificou a ordem de transferência (o que acaba por ser uma acusação contra Jessep), o anterior interrogatório a Kendrick ganha muito mais força e até o próprio interrogatório ao médico se torna retrospectivamente mais relevante.
Markinson escreve uma carta aos pais de Santiago dizendo que o filho deles morreu porque ele não teve forças para impedi-lo. Então, suicida-se com o seu uniforme de gala. Não terá sido esta a única razão para ele tirar a sua vida. Podemos assistir ao filme e esquecer Markinson facilmente, porque ele mesmo se apaga e se esconde. Contudo, é o sujeito que vive o drama de querer fazer a coisa certa, mas que acaba por não assumir o peso da responsabilidade implicada nas decisões, pelo que se omite ou alinha no erro, talvez dizendo a si mesmo que está a ser leal. Ele é o especialista em se esconder, mas que irá ficar sob os holofotes se for testemunhar em tribunal. Para ele, a morte parece mais fácil de suportar do que ter de acusar Kendrick ou Jessep e enfrentar os olhares daqueles que o podem considerá-lo um traidor. Ou talvez o viver escondido ou apagado se tenha tornado para ele numa espécie de segunda natureza, pelo que mostrar-se torna-se intolerável. Iria mostrar-se como o cobarde que não protegeu Santiago e também como o traidor que se volta contra a hierarquia.
O próximo a ser entrevistado é Downey, que diz a Kaffee que Kendrick ordenou a ele e a Dawson, às 16:20, um “código vermelho” a ser aplicado a Santiago. Contudo, Ross já tinha previsto isto e consegue provar que Downey não podia ter estado no quarto àquela hora. Afinal, Downey não ouviu a ordem de Kendrick directamente, mas foi o cabo Dawson que lhe deu a ordem a ele, seguindo a linha de comando (o próprio Dawson ordena a Downey para dizer a verdade ao procurador). Temos aqui mais uma limitação resultante do sentimento de pertença a um grupo que tem um Código, que leva a desprezar e a desconfiar daqueles que estão fora, ao ponto de esconder informações relevantes aos advogados que os defendem e que têm a vida deles nas mãos.
Mais tarde Galloway acha que o fracasso do testemunho de Downey não altera grande coisa, mas Kaffee acha que é desastroso, porque se soma à morte de Markinson, que ele comunica aos outros dois advogados. Ou seja, toda a estratégia da defesa cai como um castelo de cartas. O próprio embaraço que Kaffee conseguiu provocar em Kendrick no tribunal torna-se irrelevante, pois nada prova e deixa de ter seguimento. Kaffee está embriagado e admite a derrota, mas Galloway quer pedir um adiamento ao juiz de 24 horas para intimar Jessep. Galloway acusa Kaffee de cobardia, ao ver a postura derrotada dele. Sabe que ele pediu a ordem de transferência a Jessep porque teve intuição de alguma coisa, porque podia tê-la obtido directamente do Pentágono. Galloway quer que Kaffee faça Jessep confessar que ordenou o “código vermelho”, mas Kaffee ridiculariza essa ideia. É absurdo pensar que Jessep confesse tal coisa, incriminando-se em tribunal, mas se Kaffee acusar o Coronel sem provas terá de enfrentar o Tribunal Militar.
De volta ao ataque
Na cena anterior, Kaffee, embriagado, faz uma cena dramática, acabando por atirar papéis ao chão, ao que Galloway reage saindo de forma chocada. Mas é Weinberg, que parece ser apenas um figurante, a sós com Kaffee, que o introduz na perspectiva correcta. É Kaffee que, de alguma forma, pede primeiro a ajuda dele, perguntando ao outro se o pai de Weinberg tem orgulho nele. Weinberg sabe que aquilo pode descambar numa onda de “coitadismo” e diz que fez um trabalho na faculdade sobre o pai de Kaffee, um dos melhores advogados de tribunal do país, mas escolheria o filho para defender os fuzileiros, depois de ver como ele se atirou a Kendrick. Intimaria o Kaffee pai Jessep a depor? Provavelmente não, com o tempo que lhes resta, mas Weinberg diz que o que importa é o que Kaffee filho vai decidir fazer.
Então, Kaffee decide voltar ao caso, vai atrás de Galloway e diz que irão intimar Jessep. Surpreendentemente, a estratégia de Kaffee é fazer Jessep confessar que ordenou o “código vermelho”, uma estratégia que ele mesmo tinha considerado ridícula na noite anterior. Ele acha que Jessep quer confessar, porque não quer manter uma decisão escondida e quer dizer para toda a gente que toma o pequeno almoço a 250 metros de 4 mil cubanos e assim por diante. Na realidade, Jessep praticamente já confessou que tinha ordenado o “código vermelho” na cena de almoço que analisamos, mas como fazê-lo confessar o mesmo em tribunal? Kaffee não tem a menor ideia.
Uma pista de como fazer isso aparece meio casualmente - num expediente que se tornou tão comum no cinema que, em vez de ser uma surpresa, é uma espécie de elemento obrigatório que todos esperam em certos tipos de filme -, quando Kaffee vai buscar o seu taco de baseball, que o ajuda a pensar, colocado no guarda-fatos por Galloway. Isso recorda-o do guarda-fatos de Santiago e daqui vai sair um elemento a usar para atacar Jessep em tribunal. Por outro lado, Kaffee pede a Weinberg para ir à base de Andrews. Antes de começar a sessão de tribunal, Kaffee parece enormemente confiante, mas Galloway sente a gravidade do momento e diz para ele não pressionar muito Jessep se achar que não vai conseguir obter nada dele, porque isso lhe pode trazer grandes problemas.
A confrontação decisiva
Jessep aparece em tribunal, com uma rigidez militar excessiva, como que mostrando altivez e desprezo por aquele aparato. Entretanto, Kaffee faz algumas questões, como se tentasse ganhar tempo, porque Weinberg ainda não voltou da base de Andrews. Entretanto, este entra em tribunal, acompanhado por dois militares da Força Aérea (uniformes azuis), entregando um papel a Kaffee e tal não passa despercebido a Jessep, pelo que temos um pequeno elemento de intimidação contra o Coronel.
Jessep confirma a ordem de transferência de Santiago, estando previsto este seguir no vôo das seis horas, mas Kaffee estranha que ele não tivesse feito as malas. Este insight foi o que ele teve recentemente quando foi buscar o seu taco de baseball ao guarda-fatos e recordou que o guarda-fatos de Santiago estava intacto. Supostamente, Santiago iria ser transferido ainda de madrugada, mas não fez as malas e também não ligou a ninguém para dizer que ia ser transferido, o que é estranho para alguém que queria tanto sair dali e que escreveu 14 cartas para os mais diversos destinatários, apelando à mudança de lugar. O próprio Jessep fez três chamadas para fora antes de se ausentar de Guantánamo e fez as malas atempadamente. Kaffee começou por estabelecer primeiro estes dados a respeito do Coronel, que são tão banais que parecem irrelevantes, mas que estando ausentes em Santiago levam a duvidar que ele estivesse para ser transferido.
Então, Kaffee faz o seu primeiro ataque explícito e diz que não havia qualquer transferência prevista para Santiago. O procurador protesta contra esta linha de conduta, o que é indeferido, mas Jessep parece se agradar com aquele desafio, sorri até, porque se considera infinitamente acima de Kaffee e gosta de desafios e de medir forças. Contudo, Jessep não morde logo o isco e volta à narrativa oficial (afirmando que Santiago ia ser transferido no vôo das 6:00) e lança um comentário que tenta humilhar Kaffee, dizendo que é uma pobre estratégia colocar a vida de dois fuzileiros em jogo com base numa conta telefónica.
Pergunta Jessep se Kaffee tem mais alguma questão. Este olha em volta, mira os dois militares da Força Aérea, depois Weinberg, que abana negativamente a cabeça, sinalizando-lhe para desistir, e Galloway, que não faz nenhum gesto, mas este é o momento em que ela disse que ele devia desistir, porque parece muito improvável que Jessep confesse alguma coisa.
Jessep levanta-se e começa a retirar-se, mas Kaffee diz que não o dispensou e pede para ele se sentar. Um pouco irritado, Jessep diz para ser tratado por “senhor” ou por “coronel” e o juiz assim o ordena. Jessep não resiste e diz para o juiz que não sabe que tipo de unidade ele comanda ali, ao que este replica: “A testemunha tratará este juiz por «juiz» ou «meretíssimo»”.
Entretanto, Kaffee ameaça chamar depois os elementos da Força Aérea para testemunharem que houve um vôo anterior ao das 6:00. Já tendo entrado um pouco na mente de Jessep, que começa a mostrar alguns sinais de impaciência, Kaffee questiona aquele sobre a ordem que deu de ninguém tocar em Santiago e se alguém pode esquecer ou desobedecer a uma ordem. Jessep nega e sugere que isso é impensável acontecer numa base avançada, onde os soldados colocam a sua vida nas mãos dos outros. Já teve Kaffe numa posição dessas? Não. O Coronel Jessep não tinha de começar com aquela bravata, mas ao fazê-lo mostra que não resiste em mostrar o seu orgulho de fazer parte de uma unidade que vive lado a lado com o inimigo. Ou seguem ordens ou morrem. Então, Jessep inverte os papéis, para completar a sua lição, e questiona se foi claro. Sim. E Jessep volta a perguntar de forma mais enfática se foi claro. “Como cristal”, responde o advogado. Em pleno tribunal, Kaffee é submetido a um novo ritual de humilhação, como se fosse a segunda parte daquele ocorrido na cena do almoço na base de Guantánamo. Contudo, a situação agora é diferente. Antes Kaffee tinha ficado perturbado, mas agora ele mesmo colocou-se a jeito de ser humilhado pelo Coronel, para daí obter uma vantagem. Jessep é instigado a colocar-se a si mesmo numa posição em que a sua língua já ameaça se destravar.
Kaffee só tem mais uma questão para o Coronel, antes de chamar os militares da Força Aérea a depor, que tentará fazer o líquido do copo transbordar. Se Jessep deu ordem para ninguém tocar em Santiago e se naquela base todos seguem as ordens, porque motivo corria risco Santiago? Jessep tinha dito inicialmente que Santiago estava a ser transferido porque corria perigo. Então, o Coronel começa a improvisar uma resposta, dizendo que Santiago era um soldado abaixo da média, mas Kaffee não o deixa escapar. Para quê duas ordens? Jessep diz que por vezes os homens fazem a justiça com as suas próprias mãos. Mas Jessep disse antes que ali isso nunca acontecia. “Seu arrogante de merda”, diz o Coronel directamente para Kaffee. O procurador pede um adiamento, pressentindo que as coisas podem começar a correr mal para o seu lado, mas o juiz quer continuar a ouvir.
Entre protestos do procurador, Kaffee acusa de forma veemente Jessep: os réus são apenas bodes expiatórios e foi o Coronel que ordenou o “código vermelho” a Kendrick e que coagiu o médico. Kaffee pergunta directamente: “Coronel Jessep, você ordenou o «código vermelho»?. O juiz diz que ele não precisa responder, mas Jessep, ardendo por dentro, diz que vai responder.
Aqui chegamos à cena abordada que foi abordada quase no início deste texto. O Coronel Jessep pergunta desafiadoramente a Kaffee se ele quer respostas e este diz que quer a verdade, ao que o coronel diz a famosa frase: “You can’t handle the truth”. Pelo que pesquisei, esta frase não se encontra exactamente no guião ou na peça e terá sido meio improvisada por Jack Nicholson, mas ela espelha bem a postura da sua personagem. Ou seja, Jessep acredita que as pessoas alheias ao seu contexto não conseguem lidar com a verdade, porque vivem numa falsa segurança, obtida à custa de alguns bravos que garantem que eles durmam descansados. Em teoria isto é verdade e, realmente, a maior parte das pessoas não se sente minimamente agradecida àqueles que arriscam a sua vida para que eles estejam seguros.
Contudo, Jessep não fala assim por amor à verdade, mas sobretudo por orgulho pela sua posição. Na cena do almoço ele tinha dito que não queria medalhas ou dinheiro, o que alguns podem duvidar, mas penso que não é esse o caso. Pessoas nestas situações não se importam que outros não as reconheçam, mas não suportam que alguém lhes retire o sentimento de superioridade. Há nestas pessoas um misto de humildade e arrogância que para quem está de fora não é muito fácil de entender. No caso de Jessep, há também uma vontade de domínio, de humilhar mesmo, para que a hierarquia seja respeitada, embora ele mesmo não respeite os que estão acima dele, porque estes não sabem o que é estar ao lado do inimigo, sendo mirados constantemente por uma AK-47 de fabrico siviético. Algo da vontade de dominar é necessário para quem ocupa posições de chefia, porque é preciso saber se impor, mas facilmente se extravasa o necessário e cria-se o risco de criar um culto pessoal. Prova disso é que Kendrick declarou em tribunal que apenas reconhece como autoridades Cristo e o Coronel Jessep. Então, o vício de dominar, até mesmo de manipular, começa a progredir a coberto da justificação de que a Unidade militar vive numa realidade que os outros não conseguem entender. Eles são forçados a adoptar um certo modo de vida que os furta à morte. Mas será isto assim tão linear com? A questão não chega a ser alvo de escrutínio, mas nem sequer é necessário, porque Jessep exagera claramente nas suas pretensões sobre os méritos do estilo de vida dos militares da base militar e nada mais adequado para perceber isso do que deixar que ele diga a sua verdade.
Jessep inicia um monólogo. Diz que a morte de Santiago foi trágica, mas pode salvar vidas. O modo de vida na base pode parecer grotesco aos olhos das pessoas daquele tribunal, mas salva vidas. No fundo, eles querem e precisam que existam soldados como ele que vigiem o inimigo. Os militares da base naval usam palavras como “código”, “honra”, “lealdade” não como os outros, para elaborar frases de efeito, mas como base para criar e manter uma forma de vida que defende algo. Jessep acaba por não esconder o seu desprezo por pessoas como Kaffee e pela conversa dos “direitos”. Levado pela sua própria verve e sentimento de superioridade, admite orgulhosamente que ordenou o “código vermelho”, em resposta a um questionamento directo de Kaffee. Não se apercebe logo Jessep que esta admissão de culpa significa o fim daquele julgamento e o seu próprio encarceramento. Ele explode de ira contra Kaffee, quando se dá conta da sua situação e diz que o ele acabou de enfraquecer o país, mas no final deixa ainda um ligeiro sorriso irónico. O seu sentimento de superioridade não se apaga. Ou talvez, olhando Kaffee nos olhos, Jessep tenha reconhecido o mérito a este de o ter enfrentado e ganho. Se assim é, substituiu o desprezo que tinha por ele por algum reconhecimento, por se mostrar belicoso e não desistir. Para pessoas como Jessep, o pior de tudo é a fraqueza, o que de alguma forma não deixa de ser uma postura com alguns méritos.
Se compararmos a interpretação inicial desta cena com aquela que podemos fazer agora, atendendo ao desenrolar dos acontecimentos, aparecem grandes diferenças. Lá atrás vimos que, aparentemente, se tratava de uma cena típica de tribunal, em que a testemunha é encurralada, talvez por ter sido confrontada com terríveis factos ou com contradições que indiciam fortemente a sua culpabilidade. Então a testemunha, já que se vê obrigada a dizer a verdade, expõe a hipocrisia daqueles que dizem querer a verdade, mas que se limitam a viver no meio de mentiras confortáveis.
Contudo, a interpretação da cena, depois de tudo o que foi considerado, mostra um cenário bem diferente. Jessep não está realmente encurralado. Não há factos que provem a sua culpa, mas apenas duas decisões que apresentam alguma contradição: Santiago ia ser transferido porque corria perigo e Santiago não corria perigo porque Jessep tinha ordenado que ninguém lhe tocasse e ninguém naquela base iria contra as suas ordens. A decisão de transferência poderia ser contestada pelos elementos da Força Aérea, mas Jessep podia sempre alegar desconhecimento, algum tipo de confusão, talvez até pudesse culpar o falecido Markinson. A saída mais fácil para Jessep seria admitir que, talvez, a hierarquia de comando nem sempre funciona na perfeição, mas isso iria ferir o seu sentimento de orgulho.
Na verdade, quem está numa situação mais parecida com a do encurralado é o advogado de defesa, Kaffee. Por um lado, sente pressão dos familiares dos réus, que confiam que ele irá colocá-los em liberdade. Por outro lado, tem a enorme pressão decorrente de ir acusar um militar de alta patente, porque se a estratégia falha, é ele que enfrentará o Tribunal Marcial. Ele decide correr o risco e em última análise não sabemos o que mais o motivou, se a ideia de justiça, se o querer o melhor para os réus, se a vontade de vencer Jessep, se o próprio desejo de impressionar Galloway ou, ainda, a necessidade de sair da sombra do seu pai.
A ideia de que eles não conseguem suportar a verdade, embora aplicável em muitos casos, não se verifica naquela situação e Kaffee quer precisamente que Jessep diga a sua verdade. Galloway tinha declarado que gostava dos réus porque pessoas como ele garantiam que pessoas como ela dormiam descansadas. Kaffee começa a montar uma nova estratégia de defesa precisamente quando toma por base a situação real dos soldados da base, entendendo o motivo deles serem constrangidos a seguir ordens de uma forma quase cega. É a velha questão: o que faria eu na mesma situação?
De notar que a cena da confrontação decisiva só se torna credível pela própria actuação de Jack Nicholson no papel do Coronel Nathan Jessep. A personagem é construída em apenas quatro cenas, mas basta para nos darmos conta de que é um sujeito complexo. É sobretudo a cena do almoço que mostra que Jessep é o sujeito carismático, culto, mas que também é ordinário, autoritário e orgulhoso, plenamente instalado na sua sensação de “realidade” e superioridade em relação aos de fora. Na confrontação em tribunal, primeiro Jessep tenta ocultar alguns desses traços, mas acaba por exacerbá-los ainda mais do que tinha feito no almoço. É como se o seu problema fosse o exceder a justa medida, o que leva à hybris e a perdição começa a acenar nos primeiros sinais de loucura.
Desenlace final
Os réus são ilibados de todas as acusações, menos a de terem tido uma conduta imprópria para fuzileiros, sendo condenados ao tempo de prisão que já cumpriram, além de serem exonerados daquele corpo militar, sem honras. É uma vitória amarga, que Downey não entende logo e diz que não fizeram nada de mal, mas Dawson diz que fizeram, porque a função deles era lutar por aqueles que não se podem defender e eles também deviam ter lutado por Santiago. O Código e a honra são legítimas quando servem para melhor cumprir a missão que lhes foi outorgada, mas não para criar uma realidade paralela. Kaffee diz a este que não é preciso usar divisas militares para ter honra. Então, Dawson faz uma continência formal a Kaffee, reconhecido como um oficial, que antes lhe tinha negado.
O procurador Ross, à guisa de curiosidade, questiona Kaffee sobre o que pretendia ele fazer se tivesse chamado os militares da Força Aérea a testemunhar. Na verdade, apenas iriam testemunhar que não se lembram de nada, ou seja, tratou-se apenas de um jogo de cena, mas que foi uma pequena ajuda para pressionar Jessep, que sentindo-se acossado ainda ficou mais desejoso do confronto, fazendo o seu orgulho transbordar. Resta agora a Ross ir atrás do Tenente Kendrick. Kaffee, a personagem que mais amadureceu, no final ainda manteve alguma irreverência juvenil. As mentes impressionáveis acreditam que a maturidade é uma rejeição da adolescência, quando é o seu culminar, para que desabrochem novas possibilidades, mas sem que se mate o entusiasmo juvenil pela vida.
Algumas fontes consultadas:
https://en.wikipedia.org/wiki/A_Few_Good_Men
https://pt.wikipedia.org/wiki/Aaron_Sorkin
https://en.wikipedia.org/wiki/Aaron_Sorkin
https://spoilertown.com/a-few-good-men-1992/
https://www.reddit.com/r/movies/comments/1jbn68o/can_someone_explain_why_a_few_good_men_even/
https://screenplayhowto.com/screenplay-analysis/a-few-good-men-analysis/
